Breve discussão do método iconológico como foi definido por Erwin Panofsky em dois textos metodológicos fundamentais na historiografia da arte. A primeira versão do texto que define este método faz parte da introdução do livro Studies in Iconology: Humanistic Themes in the Art of the Renaissance (1932, a edição utilizada é Oxford: Westview Press, 1972, pp. 3-17), algo reescrita para o seu livro Meaning in the Visual Arts de 1955 (foi utilizada a tradução portuguesa, “Iconografia e Iconologia: uma introdução ao estudo da arte do renascimento”, O Significado nas Artes Visuais, Lisboa: Ed. Presença, 1989, pp. 31-38). Neles, Panofsky identifica os três famosos “níveis” no estudo da obra da arte: formal, iconográfico (o tema) e iconológico (o “conteúdo”). A grande diferença entre os dois textos reside na identificação, no segundo, da terceira fase como o domínio propriamente da Iconologia.


Não faz falta insistir na influência contínua, mesmo se contestada, do método iconológico de Panofsky para o desenvolvimento da disciplina da história da arte. Parece-me, contudo, importante realçar o propósito fundamental deste texto de teorizar uma abordagem à obra de arte. Tal pressupõe a problematização da prática do historiador e a necessidade de escolher e definir conscientemente um método. Ou seja, além da explicação e defesa de um método, há o objectivo de obrigar o historiador de arte a tomar consciência (e posição) da sua prática e, por outro lado, introduzir um certo rigor científico, um padrão mínimo a cumprir constituído por princípios orientadores e estandartes científicos. Que, de resto, não terão tidos carácter absoluto nem para o próprio autor, que desdiz a linearidade rigorosa e algo simplista dos três níveis logo depois de os enunciar, indicando o carácter unitário da obra de arte e logo a aplicação orgânica do método. A simplificação tendencialmente redutora com que Panofsky enuncia o seu método não deveria levar a uma formalização rígida ou simplista da investigação histórica das imagens; os seus estudos nunca o cumpriram rigorosamente.

O próprio Panofsky afirma que o seu método se insere numa tradição humanística, que se inicia simbolicamente com a Iconologia de Cesar Ripa, mas cuja genealogia inclui também, por exemplo, a escolástica. Se aceitarmos tal visão historizada do próprio pensamento, torna-se evidente que a Iconologia panofskyana é em grande parte ditada pelos próprios objectos que o autor mais estudou, todos mais ou menos próximos desta tradição humanística da imagem e do pensamento sobre a imagem de que se considera de alguma forma herdeiro. Pode-se dizer que há um debruçar-se sobre si própria desta tradição, sem realmente sair dela. E se é evidente a importância para o estudo da vertente erudita das imagens que fazem essa tradição, também se compreende as limitações que tal perspectiva humanística/erudita implica.1


Ora, a imagem no sentido panofskiana identifica-se com os primeiros dois níveis propostos no seu método, ou seja, por dois conceitos intrincadamente ligados: forma/objecto e tema/conceito. O primeiro pressupõe a identificação de formas como representações de objectos, e a combinação destes como eventos; e ainda a percepção das qualidades expressivos (intencionais ou não) destes objectos ou eventos, que pode ser estudada pela sua inserção na ‘história dos estilos’. Implica, portanto, a leitura do visual de acordo com as transformações históricas dos modos de representação, ou, do ponto de vista do processo artístico, dos métodos de composição – a escolha e apresentação dos motivos bem como os arranjos formais e procedimentos técnicos. As transformações ou continuidades daí decorrentes podem por si só já serem investidas de significado.

O outro componente, sempre consciente, é o dos temas ou conceitos, isto é, de certos motivos e composições de motivos que produzem e permitem interpretar a imagem ou, quando em conjunto, as histórias e alegorias. Como tal, a imagem insere-se numa tradição de fontes literárias e visuais que a ancoram numa ‘história de tipos’. O que aqui se entende é que a imagem, para Panofsky, define-se essencialmente por ser o suporte formal de um tema ou conceito. É também esta vertente da imagem que pressupõe uma crítica ao formalismo, que, por tomar como motor das transformações das imagens uma lógica interna formal, ignora o papel da cultura visual e literária mais lata em induzir mudanças ou permitir continuidades.2 Existirá, neste sentido, sempre uma relação de mútua influência entre forma e conteúdo (ou, poder-se-ia dizer, entre imagem e médium).


Panofsky define a tarefa iconológica (na nomenclatura de 1955) como a identificação do significado intrínseco ou conteúdo da imagem enquanto obra de arte: dos valores sintomáticos de algo além da obra (os princípios fundamentais de uma época, a atitude básica de um artista). Sublinhando o carácter humanista da disciplina, a ferramenta essencial será a ‘intuição sintética’. A história da arte, ou pelo menos a Iconologia, teria então como objectivo final o encontro e reunião de sintomas (provas ou testemunhas) que, conjugadas cientificamente (pelo círculo metódico) com semelhantes provas de outros documentos, forneceriam o conteúdo profundo de determinado período, classe, grupo, e finalmente de uma civilização.

O terceiro nível é, assim, o mais problemático, pois prende-se justamente com a definição da obra de arte, naquilo – a sua qualidade sintomática – que a faz transcender a simples imagem, e com o objectivo profundo da disciplina de história da arte. Define a obra de arte como expressão ou índice, através do seu tema ou conceito dado de certa forma, de tendências históricas gerais e essenciais do espírito humano, ou seja, como condensação inconsciente de princípios subterrâneos do contexto histórico inscritos em certas imagens. Está aqui em causa, de forma bastante evidente, uma visão transcendente da História (enquanto Zeitgeist) cuja unidade e continuidade hoje são profundamente questionadas – contra a possibilidade de definir princípios unificadores de uma época pode-se com a mesma validade opor os argumentos da imprevisibilidade e descontinuidade/localidade.


O que me parece ser então a questão não é nem a aplicação nem a renúncia integrais da Iconologia panofskiano, mas a consciência do método utilizado, sobretudo face ao objecto em estudo – a questão ‘em que medida aplicar-se-ia’. Generalizando, a tomada de consciência pelo historiador da historicidade de qualquer método e da adequação ao objecto em estudo. E, paralelamente, parece-me que isto também coloca a questão da hipótese de uma interpretação crítica (ou ‘inadequada’) através da adopção de um método conscientemente ‘contra’ o objecto, no sentido que por exemplo abordagens contemporâneas da imagem podem trazer a luz aspectos ‘ocultos’ de imagens históricas.


  1. Hans Belting adopta, por exemplo, uma concepção radicalmente diferente da Iconologia, procurando perceber, pela inclusão das categorias do médium e do corpo, aspectos como a política das imagens (o controlo da sua circulação através do médium) ou a prática das imagens (a sua actualização, ou vivência), que pode levar a estudos e perspectivas muito diferentes (H. Belting, “Image, Medium, Body: A New Approach to Iconology”, Critical Inquiry 31, Winter 2003). Refere-se também que, à medida que cesse o controlo erudito (por exemplo do imaginário religioso rural), o número de elementos que ‘fogem’ à ‘tradição’ humanística aumenta. ↩︎

  2. Na segunda parte da Introdução, Panofsky defende justamente a importância destas tradições na problemática da permanência e transformação de motivos clássicos, por um lado, e temas clássicos, por outro, na cultura europeia medieval e moderna. Cf. E. Panofsky, Studies in Iconology …, p.20. ↩︎