Sérgio Carronha, Ecúmena, 2017

Para quem conhece o espaço da galeria há uma primeira surpresa na entrada, que se faz pela primeira porta, normalmente fechada. Depois, lá dentro, uma grande construção em cana e ramos de eucalipto dá por momentos a ideia de que estamos num lugar maior – e mais opaco – do que nos lembrávamos.

As obras modelam um percurso que de alguma forma ambiciona ser um retorno às origens. Logo no início, uma discreta taça evoca a contemplação, convidando-nos a vislumbrar o céu na densidade material da cerâmica. A matéria gera imagens para o olhar atento; ao artista cabe captar e figurá-las. A contemplação é assim o início necessário para o manejo da natureza de que nos fala o geógrafo Orlando Ribeiro, numa citação que o artista colocou à entrada da exposição.

Depois, há uma cabana, memória de metamorfose e permanência, casa feita de ramos que nos acolhe e nos recorda as nossas raízes na terra e no tempo; há um “vulto” de piorno e palha, pesado capote de giesta que espalha cheiro a campo e de dentro se orna com flores silvestres, abrigo da alma mas também máscara e peso que carregamos; e há uma arquitectura tumular que veda o acesso à última sala, deixando só duas rosáceas cujo escuro silêncio é por vezes iluminado pelos sons de labor e vida, que o título nos diz ser o registo do nosso tempo na terra. As obras instauram uma espacialidade iniciática através dos mais modestos dos materiais: a argila, a cana, a palha, a pedra.

Quem se virar, pensando que chegou ao fim desta pequena viagem, deparar-se-á com uma pequena placa de xisto gravada. Conhecedores da arqueologia do sudoeste do país reconhecerão nela uma recriação de uma placa fúnebre do calcolítico. Entre o hoje e este longínquo passado, o Sérgio Carronha trabalha ainda em continuidade com esta pulsão antiquíssima de dar conta, pela obra da mão, da vida e da morte, do habitar na terra e dos voos do espírito. Quem tiver a sorte de visitar a exposição acompanhado pelo artista ouvirá como em cada momento as obras remetem para aqui, para Montemor-o-Novo e redondezas – para a pintura rupestre do Escoural, para as placas de xisto tão abundantes nos monumentos megalíticos desta região, para os elementos materiais colhidos no rio Almansor, as raízes de assentamento agrícola, ritos religiosos…. Como na geografia, há também aqui uma preocupação de “escrever a terra”, marcar as “figuras” da singularidade do lugar e da ocupação humana, a que o título da exposição se refere.

E depois esta é só uma narrativa possível; haverá outras. Esta “ecúmena” – terra ocupada pelo homem – é um lugar que se faz do saber de entrever o céu numa taça de cerâmica.

Gerbert Verheij, Alexandra Gonçalves


Para imagens, ver aqui.