Na Folha de Montemor de Dezembro, “Lobo”, de Ricardo Pires.

Ricardo Pires, Sem Título, 2017

Durante as últimas semanas as obras de Ricardo Pires ocuparam com discrição e segurança as salas da Galeria Municipal. Eram doze guaches, a maior parte de grande formato (1,40 x 1 m, portanto quase do nosso tamanho), mais uma mão-cheia de folhas do caderno de desenhos. A subtil precisão dessas obras ia-se desvendando ao olhar demorado: a exposição pedia um espectador atento, disponível para um tête-à-tête sem pressas. A segurança discreta do ofício e a audácia da forma (a cuja perseguição paciente e solitária talvez se referia o título) respiravam melhor na intimidade do acto de ver, e havia neste encontro entre o desenho e nós algo de uma contida teatralidade. A isto talvez não eram estranhas certas insinuações espaciais frequentes: os guaches bem poderiam ser diagramas ou mapas do próprio gesto do desenho. Retrospectiva fugaz (e frugal) de meia década de prática diária, de um labor que se repete sem repetir em busca de um pensamento visual, linha a linha, plano a plano, cor a cor, dia a dia, como o artista relata no precioso texto do catálogo.


Site do artista, onde também há imagens da exposição: https://ricardopires.net.