Em 2016 a Associação Cultural de Arte e Comunicação Oficinas do Convento – ou simplesmente as Oficinas – fez 20 anos. Ao mesmo tempo laboratório, espaço de investigação e produção, estrutura de apoio, janela sobre a contemporaneidade e brecha utópica no cerco cinzento da actualidade, a associação habita e tem vindo a recuperar desde 1996 as sobras do Convento de S. Francisco, em Montemor-o-Novo. Após uma campanha de angariação de fundos, lançou em finais do ano passado um livro e um filme para comemorar o percurso feito e celebrar o que há-de vir.1

Como descrever as Oficinas? Do livro e do filme recolho algumas palavras-chave: resistência e persistência, inquietudes e curiosidade, acolher, partilhar e conviver, juntar, cruzar e integrar, crescer. Também cidadania e fé (“um convento precisa de fé para se alimentar durante o tempo, não importa qual,” escreve José M. Rodrigues). A diversidade de vozes, relatos, memórias e reflexões recolhidos no livro e no filme traduz a riqueza da actividade da associação, que vai da arquitectura à cerâmica, da electrónica à fotografia, da música à investigação. Reflecte também a variedade de percursos que se cruzaram e continuam a cruzar-se no Convento de S. Francisco. E assim se fala das origens da associação, dos lugares da cultura e dos caminhos da liberdade, de memória, do rio e da paisagem de Montemor, de djambés, cavaquinhos e sonosculturas, de artes digitais, poéticas tecnológicas e construção vernacular. Fala-se da aventura cabo-verdiana, que trouxe um intensivo intercâmbio com o Centro de Ofícios e Artes em Tras di Munto (município de Tarrafal de Santiago). Também se fala da responsabilidade que trazem os cuidados do lugar que se ocupam, da forma como as coisas nascem umas das outras e redes de relações e afinidades vão crescendo, e da complementaridade entre saber e fazer neste “tempo onde abunda a teoria e onde a prática é pouco valorizada.” Fala-se do que implica fazer programação cultural descentralizada ou como manter o vínculo com a vida comunitária local.

As Oficinas nascem com a instalação de alguns ateliês de artistas – sobretudo ceramistas – no antigo convento, na altura usado como estaleiro municipal, em 1991. A associação é criada em 1996: neste ano dá-se início à recuperação de um antigo telheiro – local onde tradicionalmente se produziam materiais de construção em cerâmica: tijolos, tijoleiras, telhas – e é realizado o primeiro simpósio Escultura em Terracota. A última edição deste evento, em 2001, trouxe a Montemor escultores de todo o mundo e confirmou o papel estruturante da cerâmica na actividade da associação. Nos últimos anos dois novos espaços, o Laboratório de Terra e o Centro de Investigação Cerâmica, vieram alargar as possibilidades para a prática e a investigação desta técnica e arte.

De 2003 a 2005 teve lugar o Projecto Rio, em parceria estreita com a Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, que confirmou a vocação investigadora das Oficinas. Deu lugar a cursos, conversas, intervenções e publicações, e com ele nasceu o Festival Ananil, de que hoje é herdeiro o festival multidisciplinar Cidade PreOcupada, que ocupa espaços diversos da cidade em Junho e Julho. Actualmente a associação dá apoio à produção artística, programa exposições, concertos, ciclos de conferências e outros eventos e organiza formações numa admirável variedade de áreas – entre música, artes plásticas, performance, artes gráficas, electrónica, fotografia, vídeo e mais –, praticando um saudável desrespeito por demarcações correntes entre o que é suposto ser arte, cultura ou técnica.

Segue-se uma entrevista com Tiago Fróis, artista plástico e actualmente presidente da associação. A entrevista teve lugar em duas sessões, uma a 9 de Janeiro, outra a 3 de Abril. Reorganizei o fio da conversa e agrupei respostas tematicamente, mas busquei manter a frescura do discurso directo.


Gostaria de falar primeiro um pouco sobre o funcionamento das Oficinas

Podes dizer que temos três tipos de actividade: os processos produtivos, muitas vezes em regime de residências, a exposição-festa, e os momentos de reflexão. Quanto às residências, temos vários tipos. Temos as residências abertas, em que as pessoas se auto-propõem e nalguns casos até pagam aluguer ou serviços. Também agenciamos contactos com assistência, porque às vezes as pessoas que vêm não sabem de tecnologia ou querem trabalhar uma determinada coisa que não dominam ainda, e nós conseguimos arranjar algum especialista que os ajude nisso. Depois temos as bolsas de residência, que são mais focadas para o impacto local e para o site-specific dentro da cidade de Montemor-o-Novo, e de certa forma até para a resolução de alguns problemas locais, como a sensibilização para a importância do rio ou a criação de pequenos equipamentos úteis para a cidade. Têm essa componente mais funcional e interventiva. Por isso estamos a falar de artes plásticas mas também de design ou arquitectura.

A exposição-festa é um momento de catarse, de festa de união e de projecção de resultados, de mostra, de publicação, de abertura. Muitas vezes os processos produtivos têm necessidade de algum isolamento, da concentração da oficina, mas também há a necessidade de mostrar e celebrar as coisas que estão a ser feitas. A exposição ajuda-nos também a pensar sobre aquilo que vamos fazendo.

Sempre achei que nas exposições das Oficinas há um pouco um ambiente de família, não há aquela distância entre espectador e obra, ou entre espectador e artista…

Sim, aqui há proximidade com o processo, é mais próximo da origem da obra, digamos. Sabes de onde vem e quem é o artista. É menos institucional, muito mais frente a frente.

O que tenho ouvido de artistas que expõem aqui é que gostam disto, podem experimentar, podem arriscar, e se calhar não vão vender, mas vão ter um público mais ou menos entusiasta

Porque é poeticamente mais interessante. As pessoas vêm a Montemor – não só aqui para as Oficinas – para produzir, não para mostrar os seus trabalhos. Mostram os seus trabalhos lá fora. Aqui trata-se muito mais da produção de conteúdos do que de mercado, e acho que isto interessa, a nós e à sociedade em geral. Aqui os artistas fazem o que querem, o que geralmente só acontece já num nível muito mais alto, nos grandes centros de arte contemporânea. Porque os centros grandes já andam à procura das poéticas interessantes e das coisas fora do normal, das novas abordagens e novos problemas. Isto não costuma acontecer no patamar das galerias, de artistas que andam a querer safar-se.

Mas temos uma grande preocupação em como o público absorve os eventos. Porque se a comunicação para o público não for bem-feita não acontece. Se o dispositivo de exposição não estiver bem montado não acontece, e muitas vezes bem-feita não quer dizer limpinha. Limpinha não é sinónimo de qualidade.

E os ciclos de conversas, como se inscrevem na programação das Oficinas?

A criação de momentos públicos de partilha é bastante importante. As conversas, embora autónomas, relacionam-se de uma forma bastante directa com a nossa programação. São momentos de reflexão que ajudam a estruturar e assentar o pensamento. Ao chamar outras pessoas, que têm sempre prismas novos a acrescentar, podemos concentrar visões diversas, pensar em rede, e isto naturalmente ajuda a organizar ideias e dá origem a novos programas. Dá bastantes frutos quando tu juntas pessoas diferentes que não se conhecem e que têm inquietudes que muitas vezes não associam entre si, mas que depois no momento acabam por fazer sentido.

E não é necessariamente pensar antes de agir, muitas das vezes é pensar depois de agir. Muitas vezes é bom agir sem pensar muito, também para aguentar uma certa frescura e abrir espaço para errar. Isto é importante para depois reflectir melhor, para repensar-se acerca do que aconteceu, sobre que resultados e movimentos daí originaram. Porque às vezes os projectos também não acabam no próprio projecto, são simplesmente o impulso para acontecerem outras coisas.


Queria falar de um destes encontros improváveis, uma conversa dedicada aos Novos Paradigmas que organizaste em Outubro do ano passado. Aí juntaste apresentações de um projecto de recuperação de técnicas artesanais, de um percurso artístico centrado no fazer e um vislumbre do presente e futuro do desenho e fabricação digitais.2 Como escolhes estes projectos e estas pessoas, e onde tentaste chegar?

Escolhi estes projectos e estes pessoas por acreditar que o futuro está na criação de híbridos, na criação de novas ferramentas. Por isso fomos para as novas tecnologias e as computações, mas também para o saber utilizar das velhas tecnologias. São coisas normalmente afastadas que nós queremos emparelhar, porque achamos que daí podem vir novos sentidos. Acho que estas coisas todas juntas podem realmente contribuir para a criação de ferramentas transversais e actualizadas.

Podes dar alguns exemplos concretos do que entendes por híbridos?

O exemplo mais concreto que tenho é a tijolaser, para a qual comprámos em 2013 uma máquina de gravar com laser. A tijolaser pode gravar materiais de cerâmica feitas a mão, o que abre portas para converter, por exemplo, o tijolo num objecto ligado à internet, o que é completamente fora. Então tens o ancestral da cerâmica, do feito a mão, e o digital. É uma brincadeira, mas foi a porta para iniciar uma série de outras coisas.

Outro exemplo é a giganta desenhadora, construída em colaboração com o projecto Makers in Little Lisbon (<www.mill.pt>). É uma plotter de parede artesanal que transfere desenhos para um suporte de até 1,70 m por 2,40 m, a partir de um computador. É um híbrido também no sentido de que podes utilizar ferramentas menos rigorosas, como pincéis e outros riscadores, que as impressoras normalmente não usam. Até dá para pintar com barro líquido. Tem esta vertente mais plástica e táctil, em que a decisão humana acompanha todos os passos da máquina. Enquanto numa impressora normal a impressão sai sempre igual, aqui sai sempre diferente. Também fizemos uma plotter mais pequena e portátil, com o formato A0, o que a torna uma máquina viajante. podes levar a máquina para outros contextos, o que acaba por ter um lado mais pedagógico, de aproximar as pessoas à fabricação digital. E temos uma que pode gravar azulejos, através da incisão com riscadores de ponta dura.

Essa ideia dos híbridos passa ao lado de oposições correntes, bloqueios realmente, como passado vs futuro, tradição vs inovação, arte vs técnica, erudito vs vernáculo, fazer vs pensar ..

Exactamente. E o fazer é uma ferramenta muito importante para desbloquear coisas, porque às vezes perdemos muito tempo a pensar sem a experiência do fazer, e do erro, que implica fazer coisas sem saber. Fazer sem saber é importante, porque nesse erro muitas vezes encontram-se outras coisas de que não se andava à procura. Acho que é muito importante errar e arriscar, para ir tirando conclusões através do que se vai fazendo. Porque há também a reflexão plástica. É pensar com as mãos, pensar com a ponta dos dedos. A destreza manual é conquistada pela prática, por fazer muitas vezes, por errar muito e por fazer cortes nos dedos enquanto vais apurando uma técnica, e com o pensar é a mesma coisa. Enquanto fores fazendo vais apurando a perícia do manual, a tua sensibilidade táctil, mas também a tua sensibilidade conceptual.

Fala-se muito em transdisciplinaridade hoje em dia, mas parece-me que na prática continua-se a separar muito entre o que é suposto ser arte, cultura, ou técnica… Há espaço para estes híbridos?

Eu acho que politicamente – ao nível das políticas estatais ou das linhas-guia das candidaturas – existe a consciência da necessidade de haver contactos entre áreas de conhecimentos bastante díspares, de relacionar por exemplo a cultura com a saúde ou com a agricultura. É o politicamente correcto e é o caminho certo a seguir. Mas não acho que haja uma vontade prática real que acompanha esta consciência. Ainda não foi provado muitas vezes que essa transversalidade é benéfica, por isso trata-se de criar momentos onde ela transparece de forma muito positiva, para que possa acontecer mais vezes. Porque o mais importante é a permissividade, deixar que as coisas acontecem.


O que implica trabalhar em e desde Montemor-o-Novo?

Eu não sei qual é a diferença porque sempre só trabalhei aqui. Não tenho grande termo de comparação pessoal. Claro que tenho uma ideia feita – se calhar mal feita, porque são sempre ideias toscas, os preconceitos que criamos. Acho que o trabalho que desenvolvemos só faz sentido aqui. É um trabalho feito à medida de necessidades locais, umas mais imediatas que outras. É feita com o que esta geografia de pessoas e territórios nos pede. Trabalhamos muito com as memórias dos sítios, o que se prende com a questão patrimonial, inscrita nos estatutos da associação. As Oficinas tem um interesse patrimonial, até porque se começa pela recuperação das ruínas do Convento, e a memória também está associada a isso.

O que traz trabalhar a partir do local para a produção artística?

Claro que uma produção artística não está de todo dependente dessa relação com o lugar, mas a nós interessa-nos trabalhar desde o local, porque nos enriquece a todos. Acaba por haver um processo simbiótico e retro-alimentado. Tens feedbacks que vão sendo dados pelas pessoas, tens conhecimentos que circulam numa direcção, mas também há outros conhecimentos que circulam noutra direcção. Por isso organizamos com alguma regularidade as mesas postas, em que pomos uma mesa na rua e convidamos a população para se juntar a uma refeição comum, muitas vezes com concerto. É uma forma de nos aproximar à vida da rua, de contagiar e ser contagiado pelas populações. Muitas vezes também é trabalhar em conjunto com a população questões que se prendem a padrões de qualidade de vida. Pode ser desmistificar atitudes, alimentar procuras que às vezes ainda não existem, inquietudes que as pessoas ainda não sabem que têm porque nunca foram confrontadas. É dar janelas novas para abrir, mesmo não sabendo o que está de trás da janela.

Também pode ser uma forma dar espaço à surpresa, de não se encerrar num curto-circuito criativo?

Sim, exacto. Acho que é um método, como o método científico. A criatividade é transversal não só aos domínios artísticos mas também às engenharias e à criação do engenho em geral. É encontrar soluções para resolver problemas, grandes ou pequenos. Muitas vezes não há fronteira entre aquilo que é arte e não-arte. Existem coisas para fazer, ideias. O facto de os objectos morrerem ou não em si mesmo é o que distingue o objecto artístico de outro, mas não faz com que seja mais ou menos valorável por isso.

Uma das coisas sem dúvida importante para a actividade e persistência das Oficinas é a relação com o poder local

Sim, a relação com as políticas para a cultura que o poder local tem adoptado em Montemor-o-Novo. Estas políticas têm sido favoráveis, não só para as Oficinas do Convento mas para todo o concelho. Projectos como a Oficina da Criança ou o Espaço do Tempo são a prova disso. Acho que tem sido uma relação recíproca e simbiótica, independente de cromatismos políticos. E a permissividade, ou seja deixar que as coisas aconteçam sem as instrumentalizar, tem sido importante.


Qual é a sustentabilidade de um projecto cultural num lugar que, visto desde Lisboa ou Porto, parece periférico?

As respostas ao problema da sustentabilidade tem que ser sempre provisórias, porque se não forem provisórias é em si mesmo insustentável. Tem que haver resiliência mas também capacidade de moldar. Se não há tenacidade, a resiliência por si não chega. A resiliência pode ser simplesmente um mártir.

Há uma certa fragilidade que está presa à pouca autonomia financeira e ao problema da mobilidade por parte dos criadores normalmente implicados neste tipo de projectos. Estes têm que capitalizar dinheiro em actividades que não são as que eles gostariam, ou aquelas em que realmente empenham a sua vida. Então o pessoal subsidia a vida com outras acções. Neste sentido, acho incrível como se fala da subsidio-dependência como uma coisa má. Se olharmos para a agricultura não existe um bife de vaca, um cereal ou um quilo de açúcar que não tenha tido um subsídio. Todos os produtos na nossa sociedade estão subsidiados, e a cultura e a educação são uma actividade humana como as outras. Se olharmos para a democratização da educação e o ensino obrigatório e o direito ao saber, a cultura devia estar dentro desse mesmo barco, como um direito adquirido. Devia haver mais espaços como as Oficinas e mais permissividade noutros sítios, porque estes pequenos pontos de condensação onde as pessoas se vão juntando são importantes para o bem-estar geral e para o encontro de soluções colectivas, não só a nível artístico.

As Oficinas do Convento é um projecto de resistência?

É mais resiliência que resistência. Resistência no sentido mais impositivo ou reactivo não é uma ferramenta que temos usado muito. Acho que é mais a resiliência e a constância, é mais educacional, mais pedagógico. Porque é um problema que está preso também à grande divisão feita entre educação e cultura, que nalgum ponto da história foram estupidamente separadas. Cultura e educação realmente são a mesma coisa. Educar é cultivar as escolhas e os apetites, a vontade de ver coisas diferentes, não necessariamente por gostar ou não gostar mas pelo motivo instrutivo, pela curiosidade. A curiosidade também gera conhecimento. Se comes pão com manteiga a vida toda e não conheceres mais nada, é o melhor do mundo para ti. Mas se mostrarmos mais coisas e começarmos a ter uma mesa cheia de coisas para provar, se calhar começas a cultivar outros gostos e a descobrir coisas mais interessantes que pão com manteiga. Educar é isto, criar outras realidades para poder haver escolha.

O formalismo do que se entende hoje por educação é então também um obstáculo para esta ideia mais pedagógica da cultura?

Sim, exacto. Eu acho que é tal e qual como tu deixas o teu filho brincar na lama, para ter contacto com os micróbios. É importante que vá a escola “formal” para lidar com os micróbios, também para ter ferramentas da sociedade, porque a sociedade é um mundo cão. E é importante que ele saiba lidar com estas coisas. Claro que é importante depois que se complemente a educação com outras ferramentas mais abertas e que ajudem os miúdos a construir, a serem mais autónomos e a saírem dessa formatação. Por isso é importante que haja oásis criativos e bolhas como as Oficinas.


Um dos lados fortes das Oficinas do Convento é a rede – nacional e internacional – que tem vindo a construir com outros projectos.

O que sinto cada vez mais é que os projectos são feitos pelas pessoas. As pessoas é que fazem as redes, não são as entidades em abstracto. O que tem acontecido é que por afinidade de pessoas que por cá têm passado, acaba por haver o contágio com outras pessoas, e por vários níveis de afinidade assim se vai propagando e divulgando o projecto. Ora, isso faz com que tenhamos grandes hipóteses de encontrar pessoas que tiveram boas experiências e que encaminham para cá outras pessoas que terão boas experiências e que seguramente aportarão novos caminhos. Tem funcionado assim, e essa rede informal tem sido bastante importante para a actualização constante da actividade das Oficinas. E têm-nos aparecido mais pessoas a pedir espaço para trabalhar, até há quem nos contacte só para pedir o contacto de outra pessoa.

**É uma rede informal, mas faz circular projectos, cultura, criadores … **

E beneficia as populações dessas relações informais. No fundo acaba por ser cultura a baixo custo. Porque as pessoas já andam a circular e têm vontade de mostrar coisas e nós simplesmente servimos de catalisador para que isso aconteça num determinado local.

É tirar os intermediários do mercado de consumo para tornar esta criação mais acessível, para a trazer a um lugar menos “rentável” como Montemor

Sim.

Deste ponto de vista também me parece importante referir que localmente as Oficinas não funciona como projecto isolado. Há uma série de projectos culturais relevantes em Montemor-o-Novo, como o Espaço do Tempo ou a Oficina da Criança.

A Oficina da Criança é um projecto charneira em Montemor-o-Novo, no concelho todo, pelo trabalho educativo que leva às escolas. Fazem circular e tentam chegar a todas as crianças do concelho. Da Oficina da Criança saíram muitos criadores, muitas pessoas que adoptaram vias criativas, que foram estudar para áreas criativas ou que hoje em dia desenvolvem trabalho criativo, alguns em Montemor mas muitas fora. E neste sentido as Oficinas do Convento têm tentado criar condições para atrair pessoas no fim da formação, para que Montemor seja um sítio possível para viver e desenvolverem trabalho.

Mas há outras entidades relevantes. Claro que não podemos deixar de falar no Espaço do Tempo, mas também temos por exemplo o Projecto Ruínas, que fez agora 18 anos. Isto só prova que os projectos são resilientes, que estão para ficar e que trabalham com o âmbito local. E também levam Montemor-o-Novo para fora do concelho, no sentido que produzem coisas cá e as mostram noutros lugares. São coisas muitas vezes invisíveis para a população local, mas é isso que acontece. A coisa vai-se estruturando assim pouco a pouco.

Outra coisa que me parece importante é o funcionamento em rede destes projectos todos.

Sim, há cruzamentos. As pessoas acabam por trabalhar muito cada um no seu domínio, mas as Oficinas do Convento têm tentado congregar o sumo do que os vários organismos andam a fazer. E claro que o espírito colaborativo entre as entidades é importantíssimo. Há partilha de equipamentos, cruzamentos de actividades e públicos … Quando se cruzam tipos de programação diferentes beneficias, porque vais buscar pessoas que se calhar vão por um motivo e acabam por acompanhar e conhecer outros projectos, e todos ganham com isso.


No ano passado lançaram um livro e um documentário para celebrar os primeiros 20 anos das Oficinas do Convento. Neste livro deixas claro que celebrar 20 anos implica sobretudo perspectivar o futuro. Quais os principais desafios para a associação?

Os principais desafios para o futuro continuam a ser os mesmos desde o início: a recuperação do Convento para conseguir ter mais condições para acolher com mais qualidade pessoas e projectos e conseguir servir melhor a execução de ideias poéticas. Porque cada vez estamos a ser mais solicitados. Acaba por ser sempre a mesma coisa porque estamos sempre no início, nunca temos a meta pronta, está sempre mais à frente. Andamos sempre a preparar.

Mas isto faz parte …

Sim, faz parte. É processo. Acho que isso é bom, é frescura. Espero que se mantenha.

Também penso que o caminho é cada vez mais produtivo, oficinal – estou a falar mesmo de espaço de oficina, com recursos tecnológicos – para servir o público e a comunidade local mas também as comunidades artísticas nacionais e internacionais. Ou seja, residências com fins produtivos, de fazer coisas, sejam elas artísticas ou científicas ou mais pragmáticas, mais associadas ao design, à robótica, às novas tecnologias, tudo num ambiente de oficina experimental. Continuar, criar híbridos, romper fronteiras tecnológicas. Tentar não se replicar.

Também é urgente profissionalizar, tanto mais numa cidade como Montemor em que parece transversal a ideia de que seja uma cidade-protótipo de ponto de vista cultural. Uma cidade onde se desenrolam determinadas políticas culturais favoráveis a que aconteçam coisas. É preciso profissionalizar porque é preciso toda uma logística de apoio para a execução de actividades que implicam público. Mas para mim profissionalização não é sinónimo de formatação. Claro que se caminha para uma situação mais formal, em que se criam empregos, mas deve manter-se esta frescura que vem desde o início da associação. Não queremos fechar o plano de actividades em dezembro e não fazer mais do que aquilo que está planeado. A profissionalização poderá ajudar também a assegurar esse informalismo pelo simples facto de termos uma estrutura existente que suporta que outras coisas-satélites possam ir acontecendo.


  1. O livro, 20 Anos de Oficinas num Convento, desenhado por Joana Torgal e com contributos de uma trintena de autores, pode ser adquirido através do e-mail oc@oficinasdoconvento.com. O documentário, com o mesmo título, foi realizado por Pedro Grenha, Rodolfo Pimenta e Rui Cacilhas, e pode ser visto em https://www.youtube.com/watch?v=Xt9l80pEB_I. ↩︎

  2. Falavam, na parte da manha, Alice Bernardo, coordenador do projecto “Saber Fazer”, sediado em Matosinhos (<www.saberfazer.org>); Ferdinand Meier, engenheiro e ciclista convicto, activo no mundo do hackerspace e FabLabs; e Isaque Pinheiro, artista plástico que vive e trabalha no Porto. Pela tarde, Natxo Checa, Leonor Carpinteiro e Daniel Pires falaram da Galeria Zé dos Bois, do Festival Condomínio e dos Maus Hábitos, respectivamente. Sobre esta conversa, ver http://www.oficinasdoconvento.com/?p=9402 e http://www.oficinasdoconvento.com/?p=11774. ↩︎