Dez meses depois de partir da costa de Massachusetts, no dia 9 de Julho de 1975, o pequeno barco do artista Bas Jan Ader foi encontrado vazio e despedaçado na costa da Irlanda, revelando o fracasso do seu objectivo de chegada à costa de Inglaterra. Com este acto inconclusivo—pertencente à segunda parte da sua performance tripartida In Search of the Miraculous—o entrelace entre a vida e a performance havia chegado ao seu ponto mais alto: o da indistinção total, em que o corpo desapareceria, aparentemente, para uma morte em pleno acto artístico.
Holandês radicado na Califórnia, Bas Jan Ader tornou-se, com o seu enigmático desaparecimento no mar, num derradeiro exemplo das possibilidades extrapolativas dos artistas, cuja liberdade se demonstra infinita na arte da performance. A sua curta carreira, documentada em vídeo e centrada sobretudo nos cinco anos que antecediam a performance final do seu desaparecimento, caracteriza-se particularmente pela intenção de se submeter ao domínio da Gravidade, a fim de se objectificar—como um peso-morto, livre do domínio da sua pessoa, que o artista arremessava autonoma e voluntariamente de bancos, de cais, de árvores.
Always, Somewhere, In Search of, Elsewhere: são termos associados à sua obra que denunciam a vastidão poética do campo transcendental ao qual o artista pretendia confiar o seu corpo, até à dissolução da incerteza da sua presença. São expressões que anteviam já o seu trágico destino, quase profetizado na loucura do acto praticamente impossível: o de atravessar sozinho o oceano numa pequeníssima embarcação. Este acto transmitiu em si o adivinhar de uma rendição precoce—uma premissa tão comum na obra de Bas Jan Ader, e que o artista admitia reiteradamente face à força da Gravidade.
Ao invés de tantos artistas remetidos ao campo da arte corporal, Bas Jan Ader não assumia essa premissa como trajectória até uma conclusão: não buscava o limite extenuante da liberdade própria, nem um remate estoico de poder pessoal obtido através de estados descontrolados de êxtase, como tantos outros performers. Bas Jan Ader não era, portanto, um artista da Body-Art. Enquanto à transgressão corporal da performance dos artistas desse campo corresponde um cariz controlado e disciplinado, latente na posição de liderança total que assumem—de artista como único maestro do acto—, na sua performance Bas Jan Ader precipitava-se à ambiguidade e à deriva, escapando-se ao estigma (pois o artista assim o considerava) desse conceito de Body-Art.
Com a incerteza de um desfecho, na sua performance o controlo substituía-se pelo descontrolo, e o poder de ser corpo desvanecia-se precocemente na autonomia dos elementos que o consumiam. Essa atitude de oblação do próprio ser, como impotente face ao domínio adivinhado de forças maiores é, não obstante, comum a todo o artista libertário performativo. Também este compreende a sua derrota face a instâncias mais vastas e imutáveis que a sua individualidade—como a dor, a destruição, a morte—e a tenta colmatar com falsa impiedade própria, impingindo um poder momentâneo ao seu corpo e encaminhando-o para fins mais grandiosos que o seu. Mas, em Bas Jan Ader, o objectivo não é um fim nem uma realidade presente: tudo o que existe é a pretensão de uma suspensão, e a existência da continuidade de uma poderosa transição.
O corpo de Jan Ader não pertencia nem pertence ainda a um mundo concreto, sólido. Desvanecido algures em pleno Atlântico, o artista desmaterializou-se e transformou-se numa vaga e mera esperança de corpo, inconclusivo. Ainda que essa esperança pudesse ser dissipada com uma súbita aparição do seu corpo morto, tal traria consigo apenas um singelo e aprazível vestígio de vida, assente no reanimar da suspensão da sua performance, e na oferta desse tal ansiado desfecho conclusivo à mesma.
Contudo, o corpo de Bas Jan Ader—esse que é o singular sujeito do acto artístico, objectificado como sua matéria-prima— não se conteria nesse mero vestígio. O seu corpo pretende transitar para lá dessa falsa fisicalidade que o denuncia como ser animado e autónomo. Na verdade, o seu corpo nem sequer pertence a domínios de Eros nem de Thanatos. Ao invés, ele compõe-se de todas as forças intermédias que empurram, direccionam e comandam essas duas instâncias delimitadoras. E, assim, rendido ao intermédio das duas, transita continuamente ao invés de subsistir, por meio de forças fenomenais que o retiram do contexto da sua liberdade própria, o subjugam e o tornam transitório e, inevitavelmente, o classificam como um corpo inconclusivo.
Nota bibliográfica
Sobre o artista, consulta-se o site oficial (www.basjanader.com), o documentário Here is always somewhere else: The disappearance of Bas Jan Ader de Rene Daalder (2008), e os estudos de Jan Verwoert (Bas Jan Ader. In search of the miraculous, London, Afterall Books, 2006) e Alexander Dumbadze (Bas Jan Ader. Death is elsewhere, Chicago, University of Chicago Press, 2013).