Considera­ções sobre ilhas

— Sofia Campaniço +

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Rilke, em Notas sobre a melodia das coisas, diz-nos que a arte é dotada da capacidade de mostrar-nos a confusão em que nos encontramos a maior parte das vezes. Que a arte nos inquieta, que não nos silencia ou acalma, não apazigua a turbulência mas contribui para que ela se mantenha e se transforme num movimento ininterrupto. Que é ela a prova de que “cada um de nós vive na sua ilha; mas as ilhas não são afastadas o suficiente para que vivamos solitários e tranquilos.”1

Jean Genet, acerca da obra de Alberto Giacometti, fala-nos na necessidade de haver “uma arte—não fluida, antes pelo contrário, muito dura—dotada do estranho poder de penetrar os domínios da morte, capaz de se infiltrar pelas paredes porosas do reino das sombras.”2 Alerta-nos de que para isto é preciso pôr a nu o ponto secreto, a ferida que torna cada homem singular, único, diferente, autêntico e igual a todos os outros.

Talvez, este salvaguardar das nossas feridas, em vez da sua exaltação, seja comparável à pouca distância entre as ilhas de cada um de nós, que nos leva à inquietação produtora que gera a arte. Ter mar em vez de terra debaixo dos pés promove o constante questionamento da estabilidade.

Se a aceitação das nossas feridas implica um despojamento daquilo que tomamos como aparências visíveis, ou daquilo que tomamos como a nossa apresentação no mundo, e se isso leva à constatação da solidão, incontornavelmente igual em todos os Homens, então quando deixarem de haver feridas para exaltar, e ilhas para distanciar, talvez a arte se deixe de chamar arte e passe a ser Celebração.

Esta vontade só existe na procura de uma paisagem comum. Este esforço, mais ou menos sofrido, mas sempre revelador, só se dá na solidão. “Devemos utilizar, cada um, o nosso mais solitário sentido. Quanto mais solitários houver, mais solene, comovente e poderosa será a sua comunidade”3 Para isto, como auxílio, Rilke propõe-nos “pôr a nu o rumorejante tumulto do mar e extrair dele o ritmo do ruído das ondas, e ter isolado, na confusa rede da conversa quotidiana, a linha viva que traz as outras. É preciso pôr lado a lado as cores puras para aprender a conhecer os seus contrastes e as suas afinidades. É preciso ter esquecido o Muito por amor ao Importante.”4 Resta então saber, se na permanência de uma paisagem comum, há lugar para ilhas.


  1. Rainer Maria Rilke, Notas sobre a melodia das coisas (Lisboa: Averno, 2011), p.10 

  2. Jean Genet, O estúdio de Alberto Giacometti (Lisboa: Assírio & Alvim, 1999), 2.ª ed., p. 26 

  3. R.M. Rilke, Notas sobre a melodia das coisas, p. 28 

  4. R.M. Rilke, Notas sobre a melodia das coisas, p. 16 


Sobre Sofia Campaniço

Sofia Campaniço é artista plástica. Nasceu em Lisboa em 1989. Licenciou-se em Escultura na Faculdade de Belas Artes da mesma cidade.


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Sofia Campaniço, “Considera­ções sobre ilhas”, em Paraquedas 1 (2013). Disponível em: www.revista-paraquedas.net/ilhas-arquipelagos-pontes/consideracoes-sobre-ilhas/ (acesso em 25/05/2017)