Editorial

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“Todos os caminhos vão ter à ponte, quando o rio vai de monte a monte.”

ditado

Ao que vimos

É este o primeiro número da Paraquedas que sai a público. Paraquedas é uma revista independente que tem como território a arte, em todas as suas nascentes e afluentes, desejando constituir-se como um lugar de cruzamento e encontro de percursos, ideias, pessoas—como um arquipélago, composto de ilhas várias.

Paraquedistas, sonhamos com uma abordagem que seja de rompante, livre, sem rede de segurança além do material que se traz aos ombros. Pensamos numa variante da metáfora sobre a sombra da arte; metáfora solarenga, não de cidade mas da paisagem. Irrompendo de fora; onde as coisas, a nosso ver, se desenham com maior nitidez, sem perder a vista larga que hoje se afigura inevitável para não ficar preso no labirinto circular da actualidade.

Ilhas, arquipélagos, pontes?

O mar, de acordo com o Dicionário das Ideias Feitas de Gustave Flaubert, não tem fundo; imagem do infinito, dá azo a grandes pensamentos.1 De outro dicionário citamos uma lista de adjectivos relativos ao mar, para uso de poetas:

vasto, imenso, líquido, inquieto, impetuoso, furioso, irado, enfurecido, colérico, feroz, cruel, violento, inconstante, instável, incerto, infiel, fingido, ameaçador, voraz, devorador, alto, profundo, espumoso, salgado, ventoso, agitado, arenoso, tumultuoso, sereno, brando, tranquilo, quieto, seguro, indómito, desenfreado, horrendo, formidável, terrífico, tremendo, medonho, soberbo, revoltoso …2

São adjectivos que, pela acumulação pura de contradições, tanto descrevem quanto desfazem um território. Neste sentido, quem diz mar, diz arte, e este território impossível, infinitamente plástico, serve-nos bem. Mas preferimos apontar, nesta extensão informe da água (e das palavras), para terra firme, terra que pudesse sustentar e amparar a nossa queda. Por isso a ilha: vista do mar, um ponto de densidade máxima, um nó de sentido.

Uma ilha, ao contrário de um barco, é um mundo. Não se dá à deriva, mas mantém o seu lugar. Por isso é pela ilha que se lê o mar, que os seus fluxos, invisíveis ao olho, podem ser mapeados. Ora, as ilhas também se orientam face a outras ilhas. Da percepção deste relativo posicionamento resulta a ideia de um arquipélago. É um conjunto de relações—de justaposição, distinção, vizinhança—que além da sua percepção não tem existência. É essencialmente um mapa, uma forma de orientação.

Desenha-se este mapa de nexos, de pontes, isto é, de braços imprevisíveis que surgem do corpo das ilhas. Linhas mais ou menos invisíveis—aéreas, subaquáticas, subterrâneas—que atingem a outra margem num contacto certeiro de temporalidade irreconhecível. Se as ilhas se organizam em arquipélagos e fazem nascer de si linhas metamorfoseadas que dialogam com o horizonte, desejamos que esta imagem seja uma paisagem comum a celebrar.


Este primeiro número da Paraquedas é proposto neste sentido: como arquipélago, forma capaz de inscrever ideias e percursos num mapa partilhado, aberto à coisa comum.


  1. “N’a pas de fond. – Image de l’infini. – Donne de grandes pensées”. É o que se lê na entrada “Mer” do Dictionnaire des idées reçues 

  2. Da entrada “Mar” do Diccionario poetico, para o uso dos que principião a exercitarse na poesia portugueza (1765) 


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“Editorial”, em Paraquedas 1 (2013). Disponível em: revista-paraquedas.net/ilhas-arquipelagos-pontes/editorial/ (acesso em 25/05/2017)