Night Works, Fernando Calhau

— Mafalda Brito +

pdf · citar

Haverá sempre muitos outros níveis de leitura igualmente válidos, mesmo que irracionais. Não podemos querer perceber tudo, nem sequer percebermo-nos a nós próprios nem perceber tudo o que fazemos: a incompreensão será sempre o impulso que nos mantém vivos. Cada traço do nosso lápis é uma pergunta que nunca terá resposta.

Rui Chafes1

Fernando Calhau nasceu em 1948 em Lisboa, a mesma cidade que o viu partir, precocemente, no ano de 2002. A sua pesquisa no campo das artes iniciou-se pela gravura, na Sociedade Cooperativa de Gravadores Portugueses, por influência do seu pai, designer gráfico de profissão, ainda antes de ingressar na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, para estudar Pintura. É precisamente pela gravura que o seu percurso primeiro se afirma. Calhau confere uma grande importância à sua actividade de gravador, e é de facto por esta via que vão surgir muitas das linhas orientadoras do seu trabalho posterior: a repetição, a serialidade, o monocromatismo, a execução manual e a reprodutibilidade.

Calhau concluiu a licenciatura em 1973 e, nesse mesmo ano, obtém uma bolsa de pós-graduação da Fundação Calouste Gulbenkian para estudar Gravura na Slade School of Fine Art, em Londres, até Agosto do ano seguinte. Durante a sua estadia no estrangeiro o artista, para além da gravura, desenha a lápis de cor, fotografa—é nesta época que começa a “fotografar a natureza”, ou pedaços dela—e prepara o material para aquilo que viriam a ser os filmes em Super 8 mm. A sua investigação sobre o espaço e o tempo surgiu, precisamente, na sequência das pesquisas de Londres. Com a fotografia, Fernando Calhau procurava efectuar uma mudança de plano:

Por uma razão muito simples: eu considerava que os quadros verdes—na altura quando fui para Londres estava ainda a fazer os quadros verdes—eram planos verticais, funcionam um pouco como janelas, como ecrãs—quer dizer, mais ecrãs do que janelas. Se rebateres esses planos verticais para o horizonte, começas a ter superfícies semelhantes à superfície do mar, à superfície da relva, superfície da areia. Superfícies, no fim de contas que são paisagens. Mas eu nunca fotografava o horizonte. Portanto, cortava a possibilidade de criar uma paisagem. Uma paisagem clássica tem sempre, enfim, a terra e sempre o céu.2

Fernando Calhau, Espaço Verde, 1974

Fernando Calhau, Espaço Verde. 1974, acrílico sobre tela, 145x145 cm. Col. FCG/CAM

As superfícies de relva, de mar ou areia são, então, o rebater para um plano horizontal das superfícies dos quadros, que são espaços mensuráveis caracterizados por uma altura e uma largura. Os rebatimentos passam a ser percorríveis, passam a apontar para uma proximidade e uma lonjura, que implica um percurso, e quando se percorre um espaço demora-se um certo tempo. O espaço e o tempo associam-se assim a um outro conceito: a memória.

Night Works é uma exposição que Fernando Calhau apresentou na Galeria da Sociedade Nacional de Belas Artes em 1978. Neste projecto, a pesquisa sobre o espaço e o tempo, que vinha sendo desenvolvida desde a sua estadia em Londres, adquire outros contornos. Surge agora, e pela primeira vez, a ideia de cápsula espácio-temporal, ou seja, de um espaço e de um tempo definidos que envolvem o espectador. Esta exposição incluía fotografias sobre a noite, e feitas à noite, que definem ambientes e se conjugam com pinturas monocromáticas e peças em néon sobre superfícies revestidas a veludo.

Nestas peças existe uma noção de “instalação”: são trabalhos que constituem um bloco para ser apresentado em conjunto. A galeria transforma-se então numa ilha, num espaço delimitado onde o espectador tem a possibilidade de entrar e de se confrontar com a noite, a sua e a do artista. Nas fotografias, de longa exposição nocturna, vão surgindo apontamentos que nos situam: a luz de um candeeiro que ilumina uma árvore, a luz do luar que desvenda uma estrada sombria, a luz que simplesmente contrasta com a noite escura ou uma densa floresta, escura e azul.

O azul das telas que acompanham as fotografias da floresta é só exemplificativo, uma cor idealizada face à cor da fotografia, estabelecendo-se assim uma “relação entre a fotografia como imagem e como representação e a simbólica da cor”.3 É o que se reforça com as palavras blue e dark, escritas em árgon e não néon, uma vez que a luminosidade do primeiro é mais próxima do luar. As palavras sobre o veludo sugerem-nos, simultaneamente, proximidade e distância, criam uma ilusão de um espaço indefinido que nos dificulta a percepção do seu posicionamento: estarão próximas ou longe de nós?

Fernando Calhau, Night Works #68, 1978

Fernando Calhau, Night Works #68. 1978, fotografia a preto e branco, 77x517 cm [80 x (17x23 cm)]. Col. FCF/CAM

Fernando Calhau, Night Works #67, 1977

Fernando Calhau, Night Works #67. 1977, técnica mista sobre madeira, tela e veludo, 138x356 cm. Col. FCG/CAM

Nesta exposição surge, assim, uma aproximação deliberada ao romantismo, com uma reflexão sobre a noite e o simbólico. Calhau evoca mesmo a poesia, nomeadamente a Ode à Noite de Álvaro de Campos. Mas também Novalis nos diz, em Os Hinos à Noite:

Tão pobre e pueril me parece agora a luz—que júbilo e que bênção, ao despedir-se o dia—Assim, só porque a Noite aparta de ti seus servidores, semeaste na lonjura do espaço as esferas luminosas, para que testemunhassem da tua omnipresença—do teu regresso—no tempo do teu afastamento. Mais celestes do que aquelas estrelas cintilantes nos parecem os olhos infinitos que a Noite em nós abre.4

Para o artista a noite relaciona-se com a “destruição do horizonte e com a criação de um espaço envolvente global”,5 com o conceito de medo, não os medos individuais mas os medos ancestrais, o medo do escuro, o medo das florestas, o medo em si, com o isolamento, com a relação com o universo. De facto, “à noite as pessoas vivem mais facilmente uma situação de isolamento do que de dia; de dia há uma realidade que se desdobra e se multiplica por aí fora até aos limites da visão.”6 À noite os objectos parecem ficar mais próximos de nós, parece que as distâncias entre eles ficam mais reduzidas. É também sobre isto que nos fala Fernando Pessoa na sua Ode à noite:

… vem
E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas,
Funde num campo teu todos os campos que vejo …7

O artista propõe ao espectador o confronto com situações inesperadas, assustadoras, até mesmo situações-limite, de medo, de proximidade da morte, de angústia, mas ao mesmo tempo situações contraditórias e opostas que provocassem, alternadamente, um sentimento de conforto e desconforto. Não é por acaso que contrapõe três telas monocromáticas negras justapostas, com o equivalente da sua superfície delimitado por cordão negro que demarca o nada, o vazio. Calhau conta como experienciava este tipo de emoções:

Eu fazia muitas coisas com a experiência num automóvel à noite, em Espanha, nas estradas da Espanha central, à noite sem luar nenhum, numa estrada quase sem trânsito, apagava as luzes e parecia que tudo caía em cima do carro. Era assustador. Eram as experiências que gostava de fazer, e que gostava de demonstrar no meu trabalho. As pessoas tinham medo quando apagavam as luzes, é um bocado arrepiante, a ideia de vazio e isso tudo. Era a ideia que me interessava.8

Fernando Calhau, Night Works, 1978

Fernando Calhau, Night Works. 1978, acrílico sobre tela e néon sobre veludo, 3 x (145x145 cm) + 2 x (50x70 cm). Col. Fundação Luso-Americana

Em Night Works Fernando Calhau convoca o sujeito para dentro de um espaço delimitado, de uma ilha constituída pela obra no seu todo, no sentido de o colocar perante uma experiência de medo, de terror. O artista cria uma espécie de “ilha dos mortos”, um local onde se sente o isolamento, onde a saída parece não ser imediata mesmo sendo possível.9 O interior da galeria transforma-se, agora, no interior de uma floresta, onde só a luz do luar ou de um candeeiro nos permitem localizar, mas apenas vagamente; onde somos obrigados a confrontarmo-nos com as nossas angústias. Ao mesmo tempo, a “nossa” ilha é um local de intimidade, de nos encontrarmos connosco, talvez até acolhedor. Parece existir aqui uma tentativa de provocar no espectador uma relação física, performativa, com a obra, uma experiência através do corpo e dos sentidos. O facto de o artista ter necessidade de se colocar a si próprio em situações limite, de perigo iminente, no sentido de experienciar, efectiva e emocionalmente, este tipo de situações de terror, reforça esta ideia.

É o escuro da noite que esta exposição nos mostra. Um escuro que pode ser, simultaneamente, apaziguador e revelador de todos os medos, onde somos confrontados com a perda de limites e com a noção de isolamento. É o negro que, para Fernando Calhau, é sinónimo de “um espaço carregado. É uma atitude mais do que uma forma de afirmação pictórica. É uma sensação vital, a de estarmos à mercê de um espaço sem orientação”.10

Bibliografia

ANACLETO, Ana. “Fernando Calhau (1948–2002): La manière noir”. L+arte 67 (2010), p. 52–57

CALHAU, Fernando e Delfim SARDO. “Sem rede: Uma conversa com Fernando Calhau em quatro noites de Fevereiro de 2001”. In Work in Progress: Fernando Calhau, p. 46–23. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001

CHAFES, Rui. “Ser é estar num ponto”. In Fernando Calhau. Convocação. Leituras, p. 31–35. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2007

FARIA, Nuno, coord. ed. Fernando Calhau. Convocação. Leituras. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2007

NOVALIS, Os hinos à noite. Tradução e prefácio de Fiama Hasse Pais Brandão. Lisboa: Assírio & Alvim, 1988

PESSOA, Fernando. Antologia Poética. Lisboa: RBA Editores, 1994

RUIVO, Ana. “Movimento perpétuo”. Expresso, 27 Outubro 2001

VILHENA, Joana Consiglieri de. “A arte e a natureza nas práticas ambientais conceptuais: Subsídios para o estudo de alguns artistas portugueses da segunda metade do século XX, congéneres à Land Art, Arte Povera e Arte na Natureza”. Dissertação de mestrado, Universidade de Lisboa, 2001


  1. Rui Chafes, “Ser é estar num ponto”, in Fernando Calhau. Convocação. Leituras (Lisboa: FCG, 2007), p. 33 

  2. Fernando Calhau e Delfim Sardo, “Sem rede: Uma conversa com Fernando Calhau em quatro noites de Fevereiro de 2001”, in Work in Progress: Fernando Calhau (Lisboa: FCG, 2001), p. 47, 49 

  3. Calhau e Sardo, “Sem rede”, p. 143 

  4. Novalis, Os hinos à noite (Lisboa: Assírio & Alvim, 1988), p. 19 e 21 

  5. Calhau e Sardo, “Sem rede”, p. 145 

  6. Calhau e Sardo, “Sem rede”, p. 146–147 

  7. Fernando Pessoa, Antologia Poética (Lisboa: RBA Editores, 1994), p. 196 

  8. Joana Consiglieri de Vilhena, “A arte e a natureza nas práticas ambientais conceptuais: Subsídios para o estudo de alguns artistas portugueses da segunda metade do século XX, congéneres à Land Art, Arte Povera e Arte na Natureza” (diss. de mestrado, Universidade de Lisboa, 2001), p. 183 

  9. Para si, e como uma espécie de passatempo, Calhau efectuou duas versões do quadro A ilha dos mortos de Arnold Böcklin, que tanto admirava. Um exercício que não seria para partilhar com os espectadores: “É nitidamente um exercício que não sai de casa, é um quadro de horas mortas, uma brincadeira, em vez de fazer um quadro fiz um Böcklin, aliás fiz dois”, refere o artista, citado por Vilhena, “A arte e a natureza nas práticas ambientais conceptuais”, p. 189–190 

  10. Citado em por Ana Ruivo, “Movimento perpétuo”, Expresso, 27 Outubro 2001, p. 28 


Sobre Mafalda Brito

Mafalda Brito é licenciada em História da Arte pela Faculdadede Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Actualmente é bolseira ao abrigo do Programa Leonardo da Vinci no Museu Ingres em Montauban, França, e mestranda em Ciências da Arte e do Património na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa.


Citar

Mafalda Brito, “Night Works, Fernando Calhau”, em Paraquedas 1 (2013). Disponível em: www.revista-paraquedas.net/ilhas-arquipelagos-pontes/night-works-fernando-calhau/ (acesso em 25/05/2017)