Projecto: Planisfério da Inter­culturali­dade


organização de Lúcia Luz

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Apresentamos, neste número, alguns elemenentos relativos ao projecto “Planisfério da Interculturalidade”—projecto de arte e educação que está a decorrer em Almada, visando a criação de um painel cerâmico composto por milhares de azulejos produzidos pela comunidade escolar da Monte de Caparica e Miradouro de Alfazina. No momento em que escrevemos (Junho de 2013), a primeira fase de produção dos azulejos já está concluída.

Incluímos aqui uma apresentação do projecto pelo seu coordenador Mário Rainha Campos, um fragmento de uma conversa com alguns dos participantes e uma reflexão final de Lúcia Luz. O decorrer do projecto pode ser seguido através da página do projecto no facebook.

Visão geral de uma sessão do Planisfério. Bruno Mendes, 2013

Imagem: Bruno Mendes, 2013

O Planisfério da Interculturalidade

Mário Rainha Campos1

O Planisfério da Interculturalidade é um Projeto Educativo de Participação Voluntária e de Coesão Social em Ambiente Escolar, que decorre do Monumento à Multiculturalidade2. Concebido e coordenado pelo Serviço Educativo da Casa da Cerca – Centro de Arte Contemporânea, em colaboração com a Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, o projecto tem como finalidade a produção de um mural cerâmico a colocar na área do Centro Cívico de Caparica.

A avaliação global do processo que conduziu ao Monumento à Multiculturalidade, o envolvimento comunitário e as implicações e expectativas geradas neste contexto, foram determinantes para justificar a necessidade de potenciar o vínculo dos moradores ao seu território, promovendo e ampliando a reflexão e abrindo à participação da comunidade educativa em torno do conceito de multiculturalidade, numa perspetiva intercultural e inclusiva.

É neste contexto que surge o projeto educativo “Planisfério da Interculturalidade”, com o objetivo de envolver toda a comunidade escolar e, através dela, as suas famílias, potenciando e aprofundando relações de boa vizinhança e a apropriação e preservação do espaço público. Neste sentido, é dirigido a todos os alunos (cerca de 1900) de todas as escolas dos dois agrupamentos que existem na área do Monte de Caparica (Monte de Caparica e Alfazina), desde o Jardim de Infância até ao 3º ciclo. Pretende­‐se, assim, através deste processo participativo, proporcionar a esta população escolar uma experiência que promova uma atitude responsável face ao território que habitam, implicando­‐os na transformação simbólica e real do seu espaço coletivo.

Em Abril [de 2013] começámos as atividades em contexto de sala de aula, implementadas por dezenas de voluntários que receberam formação para o efeito, coordenadas pelo Serviço Educativo da Casa da Cerca, e que contaram com a cooperação e o entusiasmo da Escola Pública, cujos Professores e Educadores aderiram ao Projeto desde o início.

O produto final será o “Planisfério da Interculturalidade”, um mural constituído por cerca de 2000 placas cerâmicas de 15x15 cm feitas nas escolas e posteriormente cozidas e vidradas na Faculdade de Belas-Artes, cada uma representando o seu autor através do molde de um objecto por si escolhido para se auto-representar. O mural permitirá, simultaneamente, uma leitura de análise a cada peça que o compõe (simbolizando a bagagem cultural de cada indivíduo) e uma leitura de síntese que permite visualizar, no todo, o Planisfério (metáfora do território da intervenção).

Apresentação do projecto. Bruno Mendes, 2013

Imagem: Bruno Mendes, 2013

Conversa com os participantes

Conversa realizada a 17 de Maio de 2013, na Escola EB 2+3 Monte da Caparica, no final da sessão com a turma 8.ª 2 MRC, por Mário Rainha Campos [MRC], Mariana Fernandes [MF] e Alexandra Rato [AR].


MRC
O que é que foi para vocês esta experiência?
Aluno
Inesquecível!
Aluno
Bué fixe!
Aluno
Uma experiência inovadora.
MRC
E mais?
Aluno
Bastante inovador.
Aluno
É uma boa contribuição para o estado do Monte da Caparica e faz com que o Monte da Caparica seja reconhecido pela sua juventude.
Aluno
E pelas boas intenções!
Aluno
E para não dizerem que nós somos só aqui, que esta escola é só de bandidos e essas coisas, para verem que nós também ajudamos o Monte da Caparica.
Aluno
E fazemos coisas boas!
MRC
Mais alguém quer acrescentar alguma coisa? Atenção que este senhor vai falar!
Aluno
Inovador. Foi um projecto bem aproveitado para a área, não só para demonstrar que não tem só coisas más mas que também tem boas e penso que vai dar um grande resultado.
Aluno
E queríamos desejar uma boa sorte.
Aluno
E que aqui no Monte [da Caparica] também temos criatividade e também pode sair alguma coisa, é só preciso um voto de confiança para nos expressarmos, se nos derem um voto de confiança nós expressamo-nos.

Salva de palmas de toda a turma.

MRC
Algum de vocês nos pode dizer o que é que entende por Interculturalidade?
Aluno
As diferentes culturas.
MRC
Também é. Mais.
Aluno
A cultura vinda de todo o sítio.
Aluno
A cultura de cada pessoa e que não há diferenças assim, de cor.
MRC
E o que quererá dizer “inter”, conhecem outras palavras que comecem por “inter”?
Aluno
Entre diferentes culturas!
MRC
Entre! “Inter” é entre diferentes culturas.

Apresentação do projecto. Bruno Mendes, 2013

Imagem: Bruno Mendes, 2013

MF
Qual a relevância do projecto para todos? Vamos pensar um bocadinho em conjunto de qual a importância de fazer uma obra de arte colectiva?
MRC
Onde várias pessoas participam.
Aluno
Conviver!
Aluno
Na obra de arte, por exemplo, podemos todos em conjunto mostrar uns aos outros o que sentimos, e podemos expressá-lo todos juntos.
MRC
Muito bem.
Aluno
Comunicação.
Aluno
União entre o grupo.
MF
Isso é fundamental. Porque às vezes isso parece que fica um bocado à margem pois parece que é intrínseco mas é bom falarmos sobre isto.
Aluno
Falarmos mais. Este trabalho faz com que nós falemos mais entre nós e assim conhecemo-nos melhor.
MRC
Quem, uns aos outros ou a vocês próprios?
Aluno
Uns aos outros e a nós próprios!
Aluno
Por vezes não estamos à espera de descobrir novos talentos nestas coisas, por vezes…
MRC
E como é que vocês se sentiram?
Aluno
Bem, contente!
Aluno
Não é todos os dias que se faz uma coisa destas, é uma experiência única.
Aluno
Vamos fazer parte de um projecto que pode durar anos e anos.
AR
Uma palavra que possa descrever a experiência que tiveram hoje.
Aluno
Estonteante!
Aluno
Esplêndido!
Aluno
Que estrondo!
AR
E tu Mário?
MRC
Realizante.
AR
E a professora?
Professora
Achei uma ideia muito original, muito fora do vulgar, e ainda bem que vocês realizaram isto no Monte da Caparica, porque eu acho que os nossos meninos merecem o que vocês estão aqui a fazer e fiquei muito feliz por isso.

Salva de palmas de toda a turma.

O “novo” artista

Lúcia Luz

Os sinais do tempo são crescentemente sensíveis e menos amistosos e chegam a uma comunidade cada vez mais desperta e atenta ao que a rodeia, nada indiferente aos desafios que lhe são constantemente impostos.

Os projectos comunitários há muito que são uma realidade, mas o que aparentava serem casos isolados adquiriu nos últimos anos uma nova dimensão, e mesmo outras preocupações. É verdade que a existência de projectos comunitários pode ser um risco para premissas individualistas, mas é também em tempos como o nosso que o cidadão, tal como o artista, passam a ter iniciativas de responsabilidade sócio-económica.

Este artista sai do seu lugar de criação para onde habitualmente levava referências e passa a procurar diálogos com as várias comunidades locais. Deixa de ser o criador individual passando a ser o intérprete e mediador do que será uma arte colectiva.

A ocupação deste artista requer um envolvimento em praticamente tudo… Seria desviar a questão se disséssemos que o ofício do artista é saber como trabalhar com este ou aquele material, ou manipular os efeitos da psicologia perceptiva, deixando o resto para outras profissões … O artista não é um sistema isolado. Para sobreviver ele tem que interagir continuamente como o mundo à sua volta… Teoricamente não há limites para o seu envolvimento.3

A arte ganha desta forma um outro estatuto. Deixa de ser um mero objecto participante e passa a ser um objecto participado. A aura permanece, mas é agora outra.

Ainda assim, e mesmo perante uma crise económica e social, a divisão entre artistas continua a existir. Uns são comissariados e pertencem a instituições e outros mantêm-se marginais e ocupam outras funções nessas mesmas instituições, por exemplo a mediação nos serviços educativos.

Neste contexto o projecto Planisfério da Interculturalidade conseguiu criar um diálogo entre essas mesmas partes referidas entre estes actores (artistas, comunidade local e instituições)], criando um trinómio que compreende:

Faculdade de Belas-Artes (artistas)
Comunidade escolar (comunidade local)
Casa da Cerca – Centro de Arte Contemporânea (instituição)

Existe, neste projecto, uma renovação e transformação de ideais à partida instaurados e dados como certos nas práticas artísticas e suas relações sociais e culturais. Criam-se novos pensamentos a partir da realidade existente.

Os artistas procuram outros paradigmas e novos locais de trabalho; contactam com o espaço do museu, não para mostrar a sua arte mas para que ambos—artista e museu—saiam dos seus “muros” e entrem numa comunidade escolar, que é invadida por um registo de trabalho pouco habitual.

Ao invés de um espaço exacto e fechado, cria-se uma plataforma aberta de trabalho, da qual todos fazem parte, não excluindo ou incluindo ninguém à partida.

Desta forma, a essência deste projecto assenta na coesão social estabelecida através da arte, onde alguns artistas e não-artistas assumem o papel de mediadores culturais e fazem com que cada um—alunos e outros participantes—reflicta, descubra e represente a sua identidade. Há um objecto/objectivo artístico para ser construído por todos, construção essa que é o meio potenciador de valores como a tolerância, o respeito entre as diferentes comunidades e a quebra de estereótipos existentes. Este desafio pode mesmo começar pela aura atrás referida, que aparenta ser mais um processo que um fim. Ela vai-se construindo e adquirindo, parecendo que o valor artístico quer ir para além de uma questão estética; podemos até dizer que há um valor social mais significativo e presente no fenómeno da arte. Podemos nomear valor estético, valor plástico e valor social como os elementos-chave de algumas obras de arte, e o mesmo acontece no projecto Planisfério da Interculturalidade.

Contudo, não se trata somente de interpretação e pedagogia. A junção de artistas, profissionais das artes, estudantes e todos os outros voluntários que tornam este projecto exequível, cria um conjunto de saberes capaz de lhes atribuir poder para estimular e desenvolver pensamentos inovadores sobre a realidade que os envolve, tanto a eles como à comunidade. São artistas e não-artistas que participam no meio social através de manifestações públicas, ou seja, mostram o mundo através das acções praticadas nele, com um poder legitimo para isso, um poder criativo e mediador dos vários conteúdos. Passam assim a ter também um papel de activistas.

Os artistas fundem-se na comunidade que os envolve onde criam com e para ela. É um processo contínuo, onde a arte é o ponto de partida e o ponto de chegada, tal como o planisfério que se materializa num globo que gira continuamente.

Criação de um azulejo. Bruno Mendes, 2013

Imagem: Bruno Mendes, 2013


  1. Técnico superior da Câmara Municipal de Almada, Serviço Educativo da Casa da Cerca – Centro de Arte Contemporânea 

  2. Os raízes deste projecto remontam ao projecto do Monumento à Multiculturalidade (2011–2013), uma obra de arte pública de envolvimento comunitário que está desde fins de Abril de 2013 no Parque Urbano de Caparica. As obras escultóricas finais resultaram de um processo criativo colectivo mediado por uma equipa transdisciplinar de artistas, designers, antropólogos e animadores culturais. Neste contexto, surgiu a ideia de um projecto que se alargasse à comunidade escolar. Para mais informações: www.mm.fba.ul.pt. [Nota dos editores] 

  3. Suzi Gablik, The reenchantment of art (London: Thames and Hudson, 2002). Tradução da autora. Veja-se também a obra colectiva Inspiring action. Museums and social change (Edinburgh: MuseumsEtc, 2009) 


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Lúcia Luz (organização), “Projecto: Planisfério da Inter­culturali­dade”, em Paraquedas 1 (2013). Disponível em: www.revista-paraquedas.net/ilhas-arquipelagos-pontes/planisferio-da-interculturalidade/ (acesso em 25/05/2017)