Ilha da culatra, 2013
Nos espaços entre a construção encontramos os não-espaços, os espaços não ocupados, e ocupamo-los. Ocupamos os espaços inabitados, vazios, ouvimos o silêncio da música e lembramos o não-acontecer. Encontramos ausência. Dançamos com ela e com os que aqui não dançam. Rimos o seu riso vazio e ausentamo-nos também neste mastro que paga a promessa que nunca cumprimos.
Dançamos nestes espaços quebradiços da nossa ancestral ausência, que repetimos sem saber porquê, sem a repetir.
Cansados desta dança, deitamo-nos, detemo-nos no mastro, nos objectos devolvidos pelo mar que baloiçam ao vento, que nos devolvem o mar, devolvendo nos ao mar e ao seu som que preenche agora esta ausência, habita o vazio, nos dá corpo, nos dá terra, terra, um vago recordar enquanto nos perdemos no horizonte, enquanto nos perdemos de novo, o mastro, o último vislumbre.
— Maja Escher, 2013
Maja Escher, Ilha da culatra. Em Paraquedas 1 (2013). Disponível em: www.revista-paraquedas.net/ilhas-arquipelagos-pontes/maja-escher/ (acesso em 05/26/2017).