[excerto de fragmentos]
Augusta Corrêa
(Rio de Janeiro 1905 – Paris 1977)
Traduzido por Abel Zorgão a)
– Was ist der Archipel?!
– Well, an archipelago is…
Foi-nos apresentado a todos o Globo mediante várias representações e imagens do seu interior e exterior (internado1). Tratamo-lo(a) pelos seus vários nomes próprios, acopulando-lhe os apelidos de cada um. Incessante é esse impulso perpetuamente iniciante de re(a)presentá-lo(a) no eterno princípio de dar forma, (nunca) concebendo identidade (nunca) concedendo unidade. Não poderíamos representar isso como um imenso arquipélago intercontinental? Os solos das terras da Terra – crostas da crusta – constituirão “o” arquipélago? Deverá interessar-nos a diferença entre “continente” e “ilha enormíssima”?
Superada umna fugaz Pangeia, quais os limites para o arquipélago? Terá fim2 num mundo esferóide.(?)
Equilibrados no que é oculto, “deduzimos”: Todas as ilhas estão ligadas por terra lá nas profundezas inabitáveis (impensáveis) do mar. Não será a superfície terrestre uma cordilheira colossal cheia de água até (in)niveláveis níveis zero? – ora muito acima de alguns montes, ora muito abaixo de alguns vales, trémulas linhas costeiras de oscilante preamar.
(in)Imagine-se (!) uma Terra sem água (“inimaginável”!), poder-se-ia então falar de “arquipélago”, “ilha”, “continente”? Que conceito de isolamento3 existiria? Certamente que haveria (o) “um”. O que é isso que tem de fazer companhia para que (h)aja “só” ? (comum para que (h)aja individual?) Que mar é este (esse mesmo mar, este mesmo!, o do arquipélago) que faz companhia para que haja solidão?
Imagens da Terra: “Unidade” esferóide – uma ilha no espaço exterior – elemento de um arquipélago de planetas, o sistema solar – arquipélago que também ele se faz ilha de um arquipélago maior, a via láctea – e assim, sucessivamente, fabrica-se no tempo o espaço sideral, o infinito. (Imagens do infinito: “Unidade” dispersa, paradoxo da reunião, nome magnético – finito – a que se agrega toda a desagregação.) Nas “regressões infinitas” como esta, há um pathos, que teima em emergir como matriz, como arquétipo: o pensamento funciona à base de “arquipélogação”4. Quando pobremente crido como movimento “associativo” o pensar reduz-se à condição de gregário da agregação, a um agrupamento, mero raciocínio – erotizado como causador do nexo causal5. Mas os arquipélagos da mente não se deixam cartografar por mera subsunção, são animados por forças que não reduzem as ilhas a meras entidades objectivas. Pelo contrário, desobjectificam-nas, desconceptualizam-nas – o espaço virtual da psique (entenda-se: o “espaço”, só) implica outra disciplina topográfica (chamar-lhe um tipo especial de mapeamento já é ser demasiado crédulo). A consciência está inundada, e isso é um estado climatérico antigo, metereologicamente irrompido em todas as suas modernidades. As cheias ensopam as ilhas do eidos, deformam-(n)as, informam-nas, enformam-nas. Os ventos marítimos afundam as barcaças do logos, rasgam os tecidos das velas – por excelente que seja a tecedura desses têxteis, por minuciosa e intrincada que seja a textura, por refinado que seja o texto. O técnico traz o motor, mas as correntes arrastam tantas algas, pedras, areia, terra (a mesma que se quer seca, na ilha), que a hélice tecedeira não tem outra saída senão encravar-se (nela própria) com maravilhosos corais, e espantosos seres marinhos – jóias que sempre foram suas. Nada no ânimo bloqueando-se pelo espanto com que é vivo e aquático, e entorpece-se com o tombo cadavérico dos seres terrestres arrastados até si pela enxurrada – e todos sabemos que o dilúvio não poupa nem aves, nem insectos voadores, nem os mais prodigiosos Helicópteros.
O arquipélago não se deixa tecer porque o mar é signo inviabilizante dessa “tecedura” na ordem simbólica – o seu fluxo expressivo é demasiado líquido para obter textura. O tecido rompe-se sempre quando deseja conceptualizar o mar – sujeitá-lo – como objecto de conhecimento. Por isso é sublime – não por ser desmedida, não por ser medida, mas por estar entre o mensurável e o incomensurável. Não há texto para (a poesia do) arquipélago, porque esse “mar de paradoxos” é o regedor anárquico, a ordem natural, o legislador entrópico do jogo.
« … Etimologicamente, o síndroma “arkhi†pélagos” é de origem viral, mas o diagnóstico é controverso. Apoiados apenas em dados clínicos, suspeitamos que parece que aparece por contracção do prefixo “arkhi-“, estirpe venérea do vírus “arkhe” (: “regra”, “lei”, “príncípio”, “início”), que é multi-resistente apesar do seu contágio ser lento. O paciente com “arkhein” manifesta sintomas dos verbos “legislar”, “ordenar”, “regrar”, “dar início”, “iniciar”, “principiar”, “dar principio”, “dar os princípios”, em quadros como “ordenar a regra do princípio legislador”, ou ainda “iniciar com ordem um princípio, dando-lhe legislação”. Estima-se que teve foco epidémico inicial na orla de Bizâncio, onde a genética apurou uma incidência do presente do indicativo “arkhon”, gene grego do qual deriva a mutação “arkhos” (: “chefe”, “legislador”, “regente”, “líder”, “ordenador”), que observamos na maioria dos surtos de “arquitectura”, “Arquimedes”, “arquétipo”, “arquimestre” – efeitos de causa mais apurável.
Mas apesar da validade destes dados, a causa de “arquipélago” continua por demonstrar e ainda não foi directamente observável por nenhum método laboratorial, pelo que – para bem de todos nós – permanecerá indubitavelmente inconclusiva.
A disseminação galopante da pandemia acelerou no último milénio. Continuamos a dispor dos princípios activos “anarkhia” e “anarkhos”, mutações domesticadas do vírus para fabricar as vacinas. Mas ao contrário do vírus (que aliena, pacifica e conforta, aumentando a esperança média de vida) a terapêutica pode ser letal, ou até – como acontece na maior parte dos casos – potenciar o risco de liberalismo agudo em caso de reversão.
O sintoma “Pélagos” é consentâneo com a crença de que os primeiros contágios se deram pelo contacto com o “mar”, em especial o “mar Egeu”, alargando-se posteriormente a “alto mar” e “mar aberto” … »
Mar Chefe
Pensar “arquipélago” obriga-me a imaginar o mar como um espaço – e um tempo – “intersticial” que separa/une enquanto une\separa (-une/separa porque separa\une-), que reúne/dispersa ao dispersar\reunir. Um mar entre ilhas retém em si a ambiguidade de tudo o que está entre, de tudo o que é entre. Ser intervalo – estar na situação de interrupção – não se coaduna absolutamente com a ideia de “interrupção”. É uma contradição paradoxal esta, projectamos um não-ser que tem de ser, afirmativamente, para ser não-ser, para afirmar uma negatividade. O que intercala e medeia “não pode ser «não»”, não pode ser “nada”, tem de ser-ser. (– Cómico jogo de palavras, nomeie-se: chamar-lhe-ei “humor aquoso”, tem tudo que ver com o olho, quando se trata de distinguir ver/\dades.) Entre é o que intercala, mas o mar do arquipélago agudiza o conceito de intervalo para um entre que extrapola um estar entre-dois, entre-três, entre-nove ilhas. É “entre-todas as costas do globo”, porque é um mesmo, total e holístico “mar”, que remete cada ilha e cada continente para um mesmo arquipélago.
Todos nós, ilhéus,
« “Sabemos Sentimos…” »6 como (–
Wie7 –) essa intermitência polar entre
encapsulamento e total abertura nos é reservada pela linguagem. Não
sentimos sabemos o que é (– Was8 –) isso.
“O mar enrola na areia” numa homeostase frágil, por vezes tão convidativa (verão…) mas sempre com os caprichos histéricos naturais à natureza, que de quando em vez lá se enfurece revelando a amplitude desmedida dos seus pólos – é assim9. Rebela-se – em nós – quando ameaçada pela sujeição a “objecto de conhecimento”. Está(-se) em constante combate com todas as margens, e esse diálogo, até quando ameno, é igualmente combativo.
Facilmente reconhecemos que o mar, na sua fluidez, não convive pacificamente com a noção de “limite”, apesar de sê-lo. Digamos que co-habita com a margem num equilíbrio sustentável – mais cm10 menos centímetro cúbico, vencido ao ar distraído, menos m2 mais metro quadrado ganho ao solo, mais erosão furada à rocha, mais areia roubada à pedra. Ondulações de sentido único, o seu limite dá-se no culto do idêntico pelo cultivo da transitoriedade – a sua métrica é monótona ou hipnótica pela copiosa inconstância dos ritmos do devir._De novo / nada há na tempestade, \ “nada” / de novo[,] traz a bonança. Inéditos, apenas os efeitos, catástrofes idênticas ao catastrófico de todas as catástrofes. O mar insiste em impor a violência da identidade – é assim.
Imaginemos que estamos na praia e o mar está calmo, reparamos que a arrebentação vai lamber a areia em desmultiplicações de um padrão que vai configurando a diferença na semelhança. Deslumbra-nos esse diferir e estabelecemos para ele uma axiologia: quanto mais subtil mais precioso, quanto mais ténue mais espantoso. Mas agora o mar embravece-se e todo ele é o mesmo, é igual, e é terrível, e todos sabemos o que fazer: fugir e contemplar a tempestade de todos os ontens – à distância. A axiologia inverte-se: quanto mais colossal mais espantoso, quanto mais desmedido mais autêntico, quanto mais sublime mais idêntico, ou seja, quanto mais inquantificável mais qualificável – antíteses entre a contradição e o paradoxo, extravasantes e extemporâneas com qualquer escala valorativa.
Não é o mar / sempre o mesmo \ de todas as perspectivas e pontos de vista, de todos os locais e lugares, de todas as coordenadas geográficas, mapeamentos geométricos, e topografias geológicas(?) Que fronteiras entre a água d’aqueleoutro Oceano, dest’Outro mar? Onde, quando e como se pacifica o atlântico? São problemas da linguagem, nos sub-extractos cavernosos de cada cultura – não são enigmas de ciência, afectam-na e transcêndem-na (pelo “princípio de razão suficiente” que certifica a insuficiência da Razão).
Sintonizemos então outro ponto de vista, para uma outra topologia: também o continente está entre, também a ilha é entre, também a situação de solo firme intercala os mares como uma interrupção. A interrupção é fonte de forças vitais que nos mostram que o reverso do positivo é um positivo, enredado nos paradoxos da negatividade.
Sismografia das Ilhas
O mar apresenta-nos riscos quando o jogamos colocando-o em risco. O mar do arquipélago sofre as investidas de reducionismos que querem acreditá-lo como risco – ilusório – da estagnação, que vejam nele o aprisionamento das ilhas num bloqueio. No mar nunca corremos o risco do impasse, o mar verifica a impossibilidade da estagnação – “fixo” é o que o mar invalida enquanto permanece o mesmo mar, na sua fixidade transitória. É na vida terrestre da ilha que se arrisca a substanciação da ilusão do fim (finisterra), do acabamento, da intransponibilidade.
O arquipélago rege-se por leis a-estruturais, forças que o reúnem entropicamente fazendo das suas ilhas falsos núcleos, falsos centros. Como tudo o que se singulariza as ilhas do arquipélago individuam-se como diferentes coágulos11 de um mesmo sangue, de um mesmo mar. Há uma dispersão valorativa desses “indivíduos” – orientam-se sem obediência a um norte, mas, não obstante, ordenam-se sem niilismo. Nascem derrotando a priori qualquer hierarquização, numa ubiquidade quasi impossível – não fosse ela o real. Essa entropia mascarar-se-ia de utopia anárquica, não estivesse ela sujeita à lei (arkhé) libertadora do mar (pélagos). Do devir descentrado que o mar impõe como (an)arquétipo ao arquipélago, advêm imagens e representações que não toleram nenhum messianismo porvir.
Um corpo resiste pela presunção de fixidade. Um sujeito não só tem de fabricar essa ilusão, como deturpá-la como possibilidade volitiva – fantasia que inconscientemente prescreve para si próprio, inflaciona-a, movimento que terá de manter a todo o custo, como garante da sua subsistência, sanidade e individuação.
Para uma tectónica das pontes
Muitas ilhas dispõem de linhas viárias que as conectam a um continente,
mas geralmente não há pontes entre as ilhas dos arquipélagos. Estarão
apenas constrangimentos geográficos, geométricos, geológicos, no subsolo
desta evidência? É que há “ilhas” muito próximas ou até tremendamente
juntas umas das outras, mas onde não se encontra solo firme para um
terra-a-terra. Há ilhas uníveis num passo de criança. Há ilhas que
comungam de pequeníssimos mares um pouco maiores que a perna do adulto
mais grandioso. Há ilhas a poucos metros de distância que estão
radicalmente separadas. Há ilhas tão próximas que seria absurdo uni-las.
Há ilhas tão distantes que se tocam (“globo”). Há ilhas tão antagónicas
que são “uma”[:] prova do “todo”. Entre todas elas um mesmo “mar de
paradoxos” – cliché popular (eventualmente). Há ilhas que distam
diferença, mas que nos obrigam a rememorar que no fundo do mar mais
profundo existe uma Terra comum à dos cumes mais hirtos (onde pingam
chuvas asperamente doces como gotas de mar e gotejam chuviscos por vezes
salgados como pingas nascentes de um rio). Façamos uma ponte paralela
a esse rio – no destino do seu curso já aqui estamos – imersos no
mar. Façamos uma ponte para saber como aqui se cai, porque até os
melhores nadadores de águas atípicas se cansam no rio revolto
afogando-se ao alcançar o mar aberto. E quanto aos grandes campeões,
esses, afogam-se à beira-mar quando já nem estão fora de pé. Enterram-se
– com pompa e circunstância. Façamos uma ponte para saber (d)onde nos
la(n)çamos. Façamos uma ponte paralela ao pensamento, paralela ao rio
e às margens, ao mar e a todas as costas do arquipélago cognoscitivo,
que permita uma distância contemplativa tanto com a terra, como com a
água. Façamo-la bem / simétrica no meio \ Equilibre-se essa ponte
no ar, domesticada pelas correntes das torrentes. Que técnica
permitiria a construção desse prodígio impossível – onde
degenera como reacção ao naufrágio que (a) reactiva?
Vivemos numa época em que os biologismos e cientismos apresentam isomorfismos como sustentação de teorias, argumentações e doutrinas12. A mimetização é o garante de sustentabilidade das descobertas científicas, sem algumas das quais, felizmente, já não podemos, nem sabemos – nenhum de nós – viver. Outras há que permanecem obsoletas desde o seu inovador nascimento e outras ainda[,] são perversamente nefastas desde o baptismo). Poderíamos comparar a rede neuronal a um conjunto de ilhas ligadas por pontes – os axónios (falsas pontes, pontes fracturadas, pois não dispensam aquelas fissuras “nanoescópicas” onde ocorrem fisiologicamente as sinapses). Mas o mais importante a reter desse artificialismo seria que os terminais dos axónios não se ligam fisicamente às dentrites, contactam mediante a conservação de um intervalo de (neuro)transmissão. Se insistimos tanto em decantar epifanias dessas estratégias comparativas, então que se veja a mais evidente (que, como sempre, é a mais violenta, a mais paradoxal, a mais inexplicável, a mais mágica): entre o axónio e a dentrite existe falha, interrupção, fractura, e isso é vital para a orgânica eléctrica do tecido neuronal. Sem essa “cultura biológica” do desmesuradamente “quase”, da (nano)fenda que separa numa (nano)distância inquantificavelmente próxima, não haveria neuro-transmissão. Sem essa micro-desunião não haveria macro-união, não se daria essa passagem química que /nada\ entre nós. (Sem atenção a isto, metaforizamos extensivamente a noção de rede, de teia, de texto, de hiper-texto, transformando os intervalos em nós.) Mas o ambiente que é o pensamento não cede a mimetismos com infinitas teia associativas expansíveis em todas as direcções numa cosmogenia estrutural – não – o intelecto sujeita-se quanto muito a um isomorfismo com o arquipélago.
Ventoso vaguear dos paraquedas13
Os paraquedas comungam destes paradoxos e quantos deles não alvejam uma ou outra ilha (acidentalmente, tantas vezes)? E quantas vezes não crêem “subsumir” até arquipélagos (como se estes pudessem ser “inteiros” e “completos”)? Quantos alvejam [“0”] nada? Um paraquedas plana num “mar de vento”, podemos bem dizê-lo, “mar de vento”, há tanto mar no ar e tanto de fluido no vento. Nata é a perfeita afinidade dos elementos e das forças da natureza14.
Um paraquedas é apenas parcialmente manobrável equilibrando-se num jogo com a imponderabilidade dos acasos naturais. Também a arte joga naturalmente com condicionantes que não controla – comigo e contigo – constrangimentos do nascer. Joga-as tanto nas profundezas da linguagem como na superfície “temperamental” dos seus sinais – tanto nas intempéries da expressão, como na intempestividade do signo.
O pára-quedismo é uma técnica de cair amparado, uma tensão paradoxal de contrários: ser queda sem cair. Quando um pára-quedista cai, algo correu mal – aquilo que é paraquedas, seja o que fôr, não (am)parou a queda. Há pára-quedas que “caem”, mas felizmente para nós, “páraquedistas”15, a maior parte deles “são queda”, i.e., um aterrar – sem voo – desde o momento do salto. A queda de pára-quedas não é um voo, mas também não é uma “falsa queda”, é um “falso-cair”. Não podemos confundir a queda do pára-quedas com a dos pára-quedistas. Estes caem de verdade quando o tecido do pára-quedas se rompe, por exemplo – e há sempre um suplente, um substituto que está por… Mas os pára-quedas, esses, só desfalecem quando o pára-quedista aterra em solo firme – vivo ou morto –, ou então caem ainda no ar, quando nem abrem, amarrotando-se e embrulhando-se em circunspectos novelos desenredados – matando (quase sempre).
A arte também parece provir de uma queda, de baixo para cima, talvez. Mas enquanto o pára-quedas (não) cai, a arte (não) decai (embora ambos (a)pareçam). Também a arte precisa de domesticar16 a imponderabilidade da queda. Também sofre de uma contradição imanente similar à do paraquedas – é verdade não o sendo, é vida não o sendo; é mentira não o sendo, é ficção não sendo. O pára-quedista intoxica-se em adrenalina na queda livre, mas o último grau orgástico, atinge-o, quando o para-quedas se abre sem se romper. O artista tem gozo em enredar-se na queda livre, mas a satisfação estética da arte, essa, não vem da segurança de quedar-se. A linguagem da arte abre-se, sim, e é um parapente da maior envergadura (– à escala –), mas rompe-se sempre, o simbólico rasga-o. Se a arte se abrisse em toda a sua pleanitude sem um único furo de fuga, tornava-se vida dilacerante, espécie de perfeita anti-matéria.
O paraquedista vive o climax da queda, porque é um falso cair, é uma técnica do cair. O artista não. A queda da arte é um cair com estilo – não um climax mas um acme, uma falsa queda.
Há paraquedas que caem no mar e a arte é um deles, é um verdadeiro cair no meio semiótico, nunca fatal, um quedar-se imediata mente no medium.
O sentido é vago, é justo, a respeito de vagas. Faz todo o sentido ser vago, ser justo, ao sentido das vagas.
Nota inicial:
(Morrer na Preia-mar)
Pretendo somente expressar vias de significação numa apresentação do sentido, mais do que apresentar sentidos contextualizados numa expressão de significados (logo aqui se sente como quero dizer nada). Sinto que para isso devo « mergulhar [repetidamente] nas águas da dúvida, uma e outra vez »17. Creio que só assim, divagando e vagueando para fora de pé, poderei (en)formar as interrogações suscitadas em mim, arriscando perder-me (naufragar por perdição) nas profundidades do questionamento e da inquietação. Imbuir-me-ei, com oportunismo, num espírito (oceânico) de deriva, com a dispersão conceptual e teórica de quem navega (ociosamente) pelas palavras-conceito que me forem surgindo. Os contentores (belos vasos ou urinóis) flutuam, e mais tarde ou mais cedo inundam-se de água, afundando-se. Não aguentam a pressão subaquática, vão-se quebrando, até que explodem. Os cacos voltam a emergir, superficialmente, à tona d’água, e agora é nadar para os coleccionar (cogitare) e criar puzzles, o mesmo e velho brinquedo intemporal, sempre em novidade, “uma e outra vez”. Não me será permitido, então, assegurar – previamente – ancoragens epistemológicas, na certeza porém que surgirão nos radares interpretativos muitos vínculos e remissões (sintonizadas em mim; no leitor; entre mim e o leitor; ou, preferencialmente, uns em mim, e outros no leitor). Proponho apenas mais um mergulho no meio linguístico, uma queda “oceânica” na linguagem, assumindo-a, com efeito, assim18, como um medium, um mar, um ambiente – “aquático”, atípico, apesar de tão (“)[estranhamente] familiar(”19).
Jogando-(me)20 à “água” tenho de instruir-me em mergulho durante a própria queda – tenho de cair com estilo21 quedar-me numa domesticação da queda. Para isso terei de privilegiar como propulsor as forças poéticas22 que animam a dinâmica vagal, adaptativa, líquida, plástica, do sentido. Só assim poderei jogar-me no mar do pensamento, saltando para fora de pé, num cair desamparado que – através do jogo da linguagem23 – se vá disciplinando em mergulho sincronizado24 durante a queda. Partirei do seguinte role de premissas: Se quisermos, os significantes aqui em análise [arquipélago, ilha(s), ponte(s), mar] são particularmente dotados25 para auxiliarem, na sua adaptatividade jogável, a criação de imagens que representem as matrizes funcionantes da consciência, da mente, do pensamento. Não apenas pela mancha que dispõem – no espaço, no mar – mas principalmente pelas dinâmicas relacionais que permitem imaginar como orientadoras desse desenho, que nunca está estático apesar de aparentar fixidade. A guiar o desenho da mancha do arquipélago está o convénio combativo dos elementos naturais – a mão é a da imponderabilidade natural dos acasos, fazedora das suas insondáveis e (– paradoxo:) anárquicas leis. É no encalço dessa possibilidade para um isomorfismo plástico que pretendo posicionar este texto.
Várias apropriações significacionais convencionar-se-ão ao longo (e ao largo) do jogar deste jogo de linguagem que desejo que vá legitimando estas adulterações26 na comunidade do seu sentido27 – regrando ao ser jogado. Aos “significantes contextualizados como símbolos” e aos “simbolizantes enquadrados como conceitos” pergunto: o que nos mostram28 do funcionamento da linguagem e do pensamento? Com que orientações flui a cadeia significante a partir deles? Como norteiam esse fluxo? Enquanto imagens, o que permitem imaginar como princípios orientadores dos processos cognoscitivos? Que gramática29 do logos possibilitam intuir ao serem pensados nos limiares da articulação da sua amplitude – plástica – na linguagem? Com o que é que mexem30, e como o fazem mexer? Que imagens permitem figurar para a dinâmica relacional que constitui os nossos processos cognitivos?
Por fim, o que é que as reverberações desses signos, assim encarados – como fendas abertas no simbólico – permitir-nos-ão dizer sobre a arte? É que é nela que se potencia esta reverberação da linguagem sobre o seu próprio funcionamento. É nela que se despoleta com maior “eficácia” o exercício destes limites – poéticos – da significação e do sentido – estimula-o em toda a esfera interpretativa, sendo por isso nela, a partir dela, ou por ela que os limites do pensamento adquirem exponenciação activa na linguagem. É operando na sua “inutilidade”, que se aprendem os hábitos e ritualizam os cultos que podem permitir situarmo-nos voluntariamente nessas zonas limite da interrogação.
a) Nota do tradutor
Propuseram-me esta colaboração cativando-me com as palavras-tema “arquipélagos”, “ilhas”, “pontes”. Há coincidências felizes, e durante a minha pesquisa deparei-me com o material que aqui traduzo. Augusta Corrêa é um heterónimo da autora brasileira Germana Loreto [S. Paulo (.Br) 1901 – Helsínquia (.Fn) 1980]. A tradução baseou-se numa comparação entre um fac-símile do datiloscrito original em português do Brasil de 1974, fotografias dos fotolitos finais (matrizes) escritos em francês e impressos pela autora em 1976, e uma tradução (brasileira) destes últimos por Tamara Franco publicada em S. Paulo, em 1988. Foram estes os elementos que tentei cruzar, conjugar e adaptar para português de Portugal (salvo quando a conservação do português do Brasil me pareceu pertinente, ou objecto de ambiguidades propositadas). Refiro ainda que os fotolitos originais estavam policromados apesar do fac-símile não permitir distinguir com rigor nem as cores de fundo de cada fragmento, que variavam ao longo do trabalho, nem as diferentes matizes dadas a parágrafos, frases ou palavras isoladas. Tentarei apurar esses valores cromáticos através de pós-produção digital de modo a reproduzir essa particularidade numa publicação futura. A pontuação é a do datiloscrito original, pois a autora assumia-a claramente como elemento significativo da mancha gráfica. O que vos trago são excertos cuja selecção ficou a meu cargo. As notas de rodapé, salvo indicado, são as da autora.
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Como “Eu”. ↩
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Ou uma finalidade finita de fins [telos] finalizados. ↩
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Na língua portuguesa,”Ilha” surge de um corte com um eventual étimo grego, do qual, por exemplo, o castelhano “isola” está mais próximo. Mas os espanhóis também têm “isla”, e os ingleses uma “island”, curiosamente homófona com “highland”. (Mistérios sem enigma, sem nexo apurável, no fundo do poço que serviu de berço à cultura, perfuração de exterior a exterior, de fora a fora da linguagem.) ↩
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Qualquer dia inventam[_os] uma “arquipelagogia”, código baptismal para uma ramificação epistémica com pretensões a « ciência (“humana”) que estuda a força do mar do pensamento como impulso primordial para a “arquipélogação” em “estados de consciência” ». ↩
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“Necessidade causal”: uma inevitabilidade, uma heroicização trágica da lógica que degenerará, tarde ou cedo, em lamento. ↩
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Aproprio-me da grafia correctiva utilizada por W diante dessa tensão conceptual entre saber e sentir. No manuscrito (MS104) lê-se: « “O impulso para o místico decorre da não-satisfação dos nossos desejos pela ciência .
SabemosSentimos que mesmo que todas as questões científicas possíveis fossem respondidas, o nosso problema não seria ainda sequer tocado [os nossos problemas da vida não seriam ainda sequer tocados]. Naturalmente, não restaria, então, mais nenhuma questão; e essa é, justamente, a resposta.” » ↩ -
Wie, Was, W. ↩
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Was, Wie, W. ↩
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Aquele assim a que já nos aproximámos com W, que não deixa mais vagar e que é puramente constatável, satisfaz por auto-suficiência, não permite dúvida nem inferência, é pleno, idêntico, é mesmo. Foi esse assim epifânico que Hegel terá sentido perante a montanha? Conta-nos Alain, em Propos sur la nature, que Hegel pode apenas dizer « …: “C’est ainsi.” … » “Um” mesmo “assim”? É 1? Sendo a montanha tão diferente do mar (do pensamento)? ↩
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3cúbico ↩
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Empréstimo de Giorgio Colli. ↩
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(– “i”. e., todo o “excedente” perpetuamente indemonstrável que compõe o que os moderados tão avisadamente denominam como ‘paradigmas’ (polimento terapêutico que ensina a lidar com a falha conferindo-lhe o “optimismo” pedagógico típico do cientismo, que os mais leigos, por ironia do destino, ainda confundem com “positivismo”.) ↩
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[n.t: no datiloscrito (brasileiro) original está conservada a diferenciação adaptada entre “pára-quedas”, “paraquedas”, páraquedas, e subsequentes variações, conforme se apresentam nesta tradução.] ↩
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Mais uma curiosidade etimológica (há quem consiga elevá-la a ensinamento): a natureza é nata do nascer do qual é nato o nada. A natura é o que incessantemente nasce, e natural é o nascimento incessante, do nada. ↩
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Que nessa condição, ainda pedimos aqui aprovação em notas de roda-pé [no meu caso tão excessivas (extemporâneas?)] para as nossas concepções. [n.t.: Paraquedas é uma revista sobre arte, e por isso o nome é (resignadamente) feliz.] Aqui, estamos mais na condição de conceber fazendo do que de fazer concebendo – aqui não somos artistas. À semelhança da nota 27, digo isto na lembrança de outras lições, dadas por diferentes arquimestres e capatazes. ↩
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W, Culture & Value. ↩
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(W, tradução adaptada da versão inglesa de Remarks on Frazer’s Golden Bough [c. 1931] editada em 1971.) Esse mergulho deve ser feito em apneia, embora haja quem use sofisticados escafandros. Também há quem apenas boie, e até há quem fique no estaleiro a construir hiates potentes – eu vou de jangada. Mas ninguém está suficientemente imune a perder-se, nausear-se ou asfixiar-se nessas águas turbulentas, pelo que, para além do já referido radar (as cartas marítimas não servem…) aconselho algumas precauções adicionais. Tento aviar-me em terra – como bom aprendiz de marujo que sempre fui – e passo sempre algum tempo a batalhar pelos comprimidos (escolásticos, académicos e não-académicos) para o enjoo. Mas apesar dos meus capatazes me irem indicando os faróis, nunca dou logo com a grande avenida das farmácias certas. Meto-me por atalhos e quando lá chego já encerraram. “Abrimos às 10h”, diz na porta, são agora 9:59 (de Domingo), meto-me ao caminho. É que, como todos os narcísicos, eu sou um bocado hipocondríaca, temo sempre que o meu estômago não tenha estofo para as drageias mais fortes, e nem todas as farmácias de bairro têm pílulas com aquele tudo-nada do extracto natural que procuro – mais potente apesar de menos corrosivo. ↩
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“Aqui só se pode descrever e dizer: a vida humana é assim.”, constata W (Remarks on Frazer’s Golden Bough) no “lavrar da linguagem” (Idem) a que o obrigou a reflexão sobre o peso antropológico do cerimonial, dos hábitos, dos ritos, dos cultos. Aqui, abraçar a própria linguagem na sua potencia poética para a “…magia…” (Idem), para o “místico” (W, Tractatus Logico-Philosophicus) (para uma metaphysica naturalis) aceitar-se-á como um “…ponto em que se possa dizer: sim, o nosso mundo é assim.” (W, MS108) ↩
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Ing.: “Uncanny” [Unheimlich (– Schelling) Unheimlich (– Freud) Unheimlichkeit (– Heidegger)] ↩
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[n.t.: No Brasil, “jogar” como sinónimo de “lançar”,”atirar”, normalizou-se no uso corrente. Em Portugal o termo regionalizou-se. O meu avô que é algarvio ainda o usa muito, bem como os meus amigos alentejanos. É um desses “acasos” da homofonia e da sinonímia particularmente feliz para nos fazer sentir como a fala fala da fala. Parece ser assim que Augusta o assume no diálogo com a noção de “jogo de linguagem”, remetente para Wittgenstein, que aparecerá mais à frente.] ↩
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“O estilo é a [expressão de uma] necessidade [humana] universal vista sub specie aeterni [(do ponto de vista do eterno)]”, escreve W (MS183, 1930) talvez rememorando palavras do Conde de Buffon: “Le style est l’homme même” (Discours sur style), ou de Schopenhauer: “Style is the physiognomy of the mind…” (“On style”, The Art of Literature). ↩
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Entenda-se, os redutos poéticos da linguagem que carregam os signos e os símbolos de adaptatividade metafórica e metamórfica. São eles que impulsionam a imaginabilidade das representações que geram mundo; são eles que permitem (re)inventar o real incessantemente fazendo nascer mundividências; são as sementes do pensamento em que radicam e de que radicam os actos cognoscitivos. É a sua predominância que engrena a semiose, induzindo(-lhe) a sua lógica e tornando-a funcionante. A sua processualidade continuará a perpetuar-se como pouco sondável – ao mesmo tempo prancha de salto, paraquedas e bóia. São redutos irredutíveis da linguagem, que ela já não consegue nomear para si própria, elementaridades para a qual já não conseguimos inventar nem atribuir um nome – pois parece já não poder haver verbo satisfatório nem discursividade adequada, e que por isso nomeiam-se sobre insatisfatórios “ins” – inomináveis, indizíveis, inefáveis, inconceptualizáveis. São por isso os condenadores ao insucesso de qualquer expedição auto-referencial em busca de autenticidade, ao mesmo tempo que são, paradoxalmente, os principais potenciómetros da Crítica – ainda que muitas vezes dissimulados, subjacentes, banalizados ou ocultos – S.Sem-sentido, garante do sentido. ↩
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(W.) Como já se notou, as afinidades surgem rapidamente, importa apenas apurar o seu cabimento. ↩
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Provavelmente aterrarei no lodo do rio, julgando-me jogada em mar aberto. Mas independentemente do porto, gostaria que o jogo da escrita e da leitura insuflasse um paraquedas bem aberto, e bem acorrentado, independentemente da corrente, que sentenciasse com um fim (feliz, de preferência) o instante de expectativa, comum a todas as quedas livres, em que não se sabe se o para-quedas vai abrir. ↩
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Talvez por permitirem conceptualizar-se mais pronta e imediatamente em noções espaciais e topográficas (digamos que são hipersensíveis ao espaço). ↩
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“adulterações” é aqui um termo correcto. É preciso lembrar apenas que adulteração não significa erro. A arte – principalmente – e a filosofia – alguma dela (no seu poetar) – estão constantemente testando as “autoridades” que pretendem fazer da adulteração – poética – um erro. Esses centros de autoria (da autoridade centrada) ignoram (por auto-ingestão de tónicos ascéticos ou científicos) que também os seus mais estimados autores constroem uma mundividência apoiada na (virtuosa) adulteração, única forma de actuação da linguagem, do simbólico, da senda representativa em que todos estamos comprometidos gerando símiles, duplos, imagens, símbolos, ficções – mecanismos verdadeiros para apurar a falsidade da Verdade inapurável. ↩
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Disse um dia uma professora num seminário – a propósito de Kant – que, ao contrário do significado, o sentido é sempre comunitário, brota do que se comunga ao mesmo tempo que faz nascer esse comum que é comungado numa partilha. O “significado” nem sempre o é – esse sim, pode ser somente solipsista, dizia ela. Um dos nomes mais eficazes para essa comunidade deverá ser “espírito” – um daqueles significantes absolutos, absolutamente vazios, ou seja, inevitavelmente “sem-sentido” (inevitabilidade que se quer manifesta, consciente) (W). Espírito é manifesta ou não-manifestamente sem-sentido, é não-referencial, é metafísico, é inobjectificável, e é – por isso mesmo – um dos significantes mais dotados para simbolizar o que nos é intimamente mais comum (– que não “sabemos”). ↩
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Dizer ≠ Mostrar em W. ↩
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Aproprio-me do uso filosófico do termo em W, pelo modo como é explorado na que é chamada a sua 2ª filosofia, expressa, por exemplo, nas Observações sobre o Ramo Dourado de Frazer, e também, conseguintemente, nas Investigações Filosóficas. Não querendo fazer destas notas um lugar de estudo comparativo, parece-me que a “Gramatologia” com que Derrida baptiza parte da sua “desconstrução” não pode deixar de encontrar eco na noção de gramática em W e nos impulsos críticos e tão “desconstrutivos” que moviam o filósofo austríaco face à tradição metafísica do ocidente. ↩
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W. ↩