Trilogia da ocupação
Feira popular
- A
- Olá, boa tarde! (Dois beijos)
- Desculpa o atraso mas um grupo extremista monárquico fez rebentar um carro bomba na Avenida da República. (Pausa)
- Como estás?
- B
- Bem… Mas aconteceu algo a alguém?
- A
- Não, nada. Mas diz, como está tudo?
- B
- Bem e contigo?
“How was the island, the sun and the sea? Tell me all about it (…) The most important thing first—any romance?” (Baccara, Parlez-Vous Français)
- A
- Foram bons os deleites na ilha. Mas aquela vida não é para mim…
- B
- Então?
- A
- O azul do mar, passado um pouco, torna-se numa enorme parede, asfixia, prende. É, é mesmo isso, torna-se uma prisão.
- Para além do mais os romances de verão ficam enterrados na areia mas não como a que se enterrou por vergonha, desalento, desespero.1
- B
- Pois.
- A
- Houve amores de raspão. Mas os outros amores não.
- B
- “O amor é o momento que que me dou, em que te dás.”
- A
- Sim, mas também é o que dura e leva à loucura. É o quotidiano; e é a Delilah que deixa de rir porque é esfaqueada (Tom Jones, Delilah); é a Telma que leva um tiro de caçadeira (Jonny Cash, T for Texas); é o Henry Lee que não a amou e não voltou para a outra (Nick Cave & The Bad Seeds Henry Lee).
(Olha para o vazio)
- B
- E a cama fria?
- A
- E a cama por fazer? E o pó nos móveis?
- B
- Depois da morte forma-se, em constelação, a união que não pode ser em vida.2 Feliz de quem não passa pela vida das limpezas de casa-de-banho?
- Serve então a casa de banho para foder e não para limpar. O que se perde com vista a um infinito que não se pode ter a certeza que se vai ganhar, é isso?
- A
- Não sei.
- B
- Sei eu. (olha com olhar penetrante para A)
- Tudo, digo-te, as duas coisas o infinito e o finito e o trabalho doméstico que não finda. “Para grandes males, água e sabão”,3 não? Já não é assim?
- A
- Neste caso não sei.
- B
- Mais vale perder “a hora mais querida da curta vida que deus te deu”? (Hermínia Silva, És livre)
- A
- Disparate dos deuses, uns dão outros tiram. “Quem dá e tira vai parar ao inferno”. Mas quem não toma decisões fica à porta.4 Posso escolher não escolher mas neste caso não. Escolho não dar mais nem tirar depois.
- B
- Tens saudades minhas? Nossas?
- A
- Saudades do que já não é não querendo criar o que podia ser?
- B
- E o que é?
- A
- O que é, é infinito. Como as ninfas da ilha e como o quotidiano perpétuo.
- B
- Dás-me razão?
- A
- Dás-me a faca da manteiga?
(Pausa)
- B
- Os scones são bons. Melhores que os que fazes.
- A
- A compota daqui também ajuda.
- B
- Reparei há pouco que os barcos no lago estão abertos. O mundo a acabar e nós contra a corrente, parece-me uma boa actividade.
- A
- O mundo não está a acabar, está a rebentar. Está por dias a chegada de um barco estrangeiro. Não sei o que vai mudar mas acho que algo muda.
- B
- Mas vamos remar um pouco depois?
- A
- Sim, seja.
(…)
- B
- Um jardim de ruínas.
- A
- Celebremos!
- B
- Como?
- A
- Sim, não foi a Suzanne que nos ensinou a olhar entre as flores e o lixo? (Leonard Cohen, Suzanne)
- A
- Ah ah ah. Isto está cheio de famílias. A procriação é um horror.5 Nesse caso, como em outros, não se ensinou nada, só se deram palavras ao que se sentia.
- B
- “Suzana, suzana, i’m crazy loving you.” (Art Company, Susanna)
- A
- Temos de ir num dos normais, já não há em forma de cisne. Queres um a remos ou pedais? Para mim tanto faz.
- B
- Remos, não?
- A
- Ok.
- A
- Só há a pedais. Deixa, compramos uma fartura e mantemos a mão livre para a comer. É pelo melhor.
- B
- Ok.
- A
- Tantos sem-abrigo.
- B
- Toma um guardanapo para limpares a boca.
- A
- Entra com calma se não isto tomba…
- B
- Tolice, estás agora a ensinar a missa ao vigário.
(…)
- A
- Vamos por aqui?
- B
- Não vamos pelas plantas, voltamos por aqui.
- A
- Fogo de artifício e agora?
- B
- Não, são morteiros…
- A
- Não gosto deste caminho, nem dos morteiros.
E pelo desconhecido e pelos medos, seguiram abraçados. Já se via a ilha dos patos.
O barco dos estrangeiros tinha acabado de chegar, os morteiros eram comemorativos.
FIM