Ilha dos amores: Amores e amor

— Diogo Leôncio +

pdf · citar

Trilogia da ocupação

Feira popular

A
Olá, boa tarde! (Dois beijos)
Desculpa o atraso mas um grupo extremista monárquico fez rebentar um carro bomba na Avenida da República. (Pausa)
Como estás?
B
Bem… Mas aconteceu algo a alguém?
A
Não, nada. Mas diz, como está tudo?
B
Bem e contigo?

“How was the island, the sun and the sea? Tell me all about it (…) The most important thing first—any romance?” (Baccara, Parlez-Vous Français)

A
Foram bons os deleites na ilha. Mas aquela vida não é para mim…
B
Então?
A
O azul do mar, passado um pouco, torna-se numa enorme parede, asfixia, prende. É, é mesmo isso, torna-se uma prisão.
Para além do mais os romances de verão ficam enterrados na areia mas não como a que se enterrou por vergonha, desalento, desespero.1
B
Pois.
A
Houve amores de raspão. Mas os outros amores não.
B
“O amor é o momento que que me dou, em que te dás.”
A
Sim, mas também é o que dura e leva à loucura. É o quotidiano; e é a Delilah que deixa de rir porque é esfaqueada (Tom Jones, Delilah); é a Telma que leva um tiro de caçadeira (Jonny Cash, T for Texas); é o Henry Lee que não a amou e não voltou para a outra (Nick Cave & The Bad Seeds Henry Lee).

(Olha para o vazio)

B
E a cama fria?
A
E a cama por fazer? E o pó nos móveis?
B
Depois da morte forma-se, em constelação, a união que não pode ser em vida.2 Feliz de quem não passa pela vida das limpezas de casa-de-banho?
Serve então a casa de banho para foder e não para limpar. O que se perde com vista a um infinito que não se pode ter a certeza que se vai ganhar, é isso?
A
Não sei.
B
Sei eu. (olha com olhar penetrante para A)
Tudo, digo-te, as duas coisas o infinito e o finito e o trabalho doméstico que não finda. “Para grandes males, água e sabão”,3 não? Já não é assim?
A
Neste caso não sei.
B
Mais vale perder “a hora mais querida da curta vida que deus te deu”? (Hermínia Silva, És livre)
A
Disparate dos deuses, uns dão outros tiram. “Quem dá e tira vai parar ao inferno”. Mas quem não toma decisões fica à porta.4 Posso escolher não escolher mas neste caso não. Escolho não dar mais nem tirar depois.
B
Tens saudades minhas? Nossas?
A
Saudades do que já não é não querendo criar o que podia ser?
B
E o que é?
A
O que é, é infinito. Como as ninfas da ilha e como o quotidiano perpétuo.
B
Dás-me razão?
A
Dás-me a faca da manteiga?

(Pausa)

B
Os scones são bons. Melhores que os que fazes.
A
A compota daqui também ajuda.
B
Reparei há pouco que os barcos no lago estão abertos. O mundo a acabar e nós contra a corrente, parece-me uma boa actividade.
A
O mundo não está a acabar, está a rebentar. Está por dias a chegada de um barco estrangeiro. Não sei o que vai mudar mas acho que algo muda.
B
Mas vamos remar um pouco depois?
A
Sim, seja.

(…)

B
Um jardim de ruínas.
A
Celebremos!
B
Como?
A
Sim, não foi a Suzanne que nos ensinou a olhar entre as flores e o lixo? (Leonard Cohen, Suzanne)
A
Ah ah ah. Isto está cheio de famílias. A procriação é um horror.5 Nesse caso, como em outros, não se ensinou nada, só se deram palavras ao que se sentia.
B
“Suzana, suzana, i’m crazy loving you.” (Art Company, Susanna)
A
Temos de ir num dos normais, já não há em forma de cisne. Queres um a remos ou pedais? Para mim tanto faz.
B
Remos, não?
A
Ok.
A
Só há a pedais. Deixa, compramos uma fartura e mantemos a mão livre para a comer. É pelo melhor.
B
Ok.
A
Tantos sem-abrigo.
B
Toma um guardanapo para limpares a boca.
A
Entra com calma se não isto tomba…
B
Tolice, estás agora a ensinar a missa ao vigário.

(…)

A
Vamos por aqui?
B
Não vamos pelas plantas, voltamos por aqui.
A
Fogo de artifício e agora?
B
Não, são morteiros…
A
Não gosto deste caminho, nem dos morteiros.

E pelo desconhecido e pelos medos, seguiram abraçados. Já se via a ilha dos patos.

O barco dos estrangeiros tinha acabado de chegar, os morteiros eram comemorativos.

FIM

  1. Pensa-se aqui na história trágico-marítima e na canção desnaturada de Chico Buarque, amor pais e filhos. 

  2. Pensa-se aqui em Manuel de Oliveira. 

  3. Lembra-se aqui João César Monteiro. 

  4. Pensa-se aqui em Dante. 

  5. Pensa-se aqui em Baudelaire. 


Sobre Diogo Leôncio

Diogo Leôncio nasceu em 1985. É professor e artista plástico.

website


Citar

Diogo Leôncio, “Ilha dos amores: Amores e amor”, em Paraquedas 1 (2013). Disponível em: www.revista-paraquedas.net/ilhas-arquipelagos-pontes/ilha-dos-amores/ (acesso em 25/05/2017)