A arte da vida

— Marc Hierro

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Sobre o Tempo, a procura, portais sensoriais e prestidigitadores existenciais

Alguma vez saíste do duche e ao observar as tuas mãos te deste conta de que parecem as mãos de outro ser, distinto e assustadoramente velho? Aí está um dos vários sinais de existência que nos envia o omnipresente e todo-poderoso, esse que os monoteístas temem tanto quanto adoram, e que eu gosto de chamar Tempo.

O Tempo, senhores e senhoras, essa dimensão que entendemos como linear, marca o ritmo e a intensidade das emoções que nos desperta tudo aquilo que acontece na nossa existência. Estas mãos arrugadas que não nos pertencem são nada mais que uma confirmação de que nada é eterno, de que a transformação é inerente à vida e que mais cedo ou mais tarde isto tudo acaba.

Ao obscuro e temido final perceber-lo-hemos todos melhor ou pior, mas que fazer entretanto com esta existência finita chamada vida que o maldito Tempo se encarregará de nos arrancar?

Se é verdade que não sou de forma alguma experto em questões transcendentais, posso no entanto sem receio afirmar que ao longo da minha curta vida conheci pessoas que pareciam ter a ansiada resposta. Trata-se de verdadeiros prestidigitadores existenciais: malabaristas emocionais que engrandecer a arte de se deixar levar pela paixão em qualquer situação, funambulistas temporais capazes de manter o equilíbrio até nos cenários mais adversos, pintores sensoriais com a habilidade de desenhar estados de alma sobre todo o tipo de telas… enfim, trata-se de pessoas que conseguiram (e continuam conseguindo) ser escultores activos da sua própria existência.

Este tipo de semideuses se reconhece rapidamente tanto pelo seu sorriso quase permanente, como pelas emoções que despertam no mais profundo das almas dos simples mortais como eu, e que normalmente oscilam entre a admiração absoluta e a raiva – digo-o com sincero desgosto – também absoluta.


Depois de partilhar várias vivências com alguns destes entes superiores, decidi estudá-los exaustivamente e em segredo. Com base na recolha e análise rigorosa de grandes quantidades de dados sobre o seu comportamento cheguei a uma série de conclusões que se resume na seguinte afirmação: estes cabrões são capazes de experimentar a sensação de que dominam e manipulam ao seu bel-prazer este ignóbil Tempo soberbamente arrogante.

Explico-me: a meu entender a vida é uma procura que tem por objectivo final a estimulação individual, uma persecução feroz para dar com o indivíduo apaixonado que todos temos dentro de nós. À nossa frente temos uma infinidade de possibilidades, incontáveis portais sensoriais abrem-se à nossa volta… a procura vital é a de que portais atravessar para encontrar mundos delirantes a que nos entregar ardorosamente.

Haverá quem ingenuamente pensa que atravessar estas portazinhas é fácil, mas não é de todo o caso. Há pessoas que encontram rapidamente uma paixão a que se entregar, outras encontram várias e outras ainda precisam de toda uma vida para se apaixonar por algo. Além disto existem várias barreiras à partida inultrapassáveis. Muitas vezes não temos outra opção e forçados a ponta de espada atravessamos um portal que conduz a um mundo sensorial que acaba por não nos agradar; outras vezes simples e puramente nos enganamos, o que nos leva a ter medo de cruzar outros portais; para aumentar a festa encontramos constantemente o nosso ineludível amigo: o Tempo que, entre outras coisas, limita a quantidade de portas que podemos atravessar ao longo da nossa existência, aumentando assim o medo do engano.

Ninguém, insisto, faz sempre o que gostaria de fazer. Todos temos obrigações que nos repelem e que transcorrem lentamente através da linha temporal. Por outra parte, quando nos encontramos com algo que nos apaixona, o Tempo se encarrega de reduzi-lo a um breve instante de satisfação (que simpático, o tipo).


Fodido, não é? Pois não o é para todo o mundo. Existem estas pessoas tocadas por uma feixe de luz divina, artistas puros que são capazes de acelerar os momentos que a outros se fazem mortalmente lentos e, se assim lhes apetecer, de retardar os momentos que a outros lhes passam num relâmpago. Esta surpreendente habilidade de manipulação temporal converte-os em seres extraordinários. A estas grandes bestas os seus enganos não lhes aparecem tão perturbantes, uma vez que conseguem encontrar uma pitada de emoção em quase tudo. Assim se tornam capazes de eliminar o medo da equação e, portanto, de cruzar muito mais portais sensoriais que os humildes mortais, vivendo uma existência cheia de experiências.

Para acabar gostaria de vos propor um pequeno exercício recheado de estereótipos:

1: Imaginem que estão nus, deitados com a pessoa mais atractiva que a vossa mente pode conceber, num lindo campo, rodeado de flores silvestres, num temperado dia primaveril; imaginem que acariciam suavemente as suas costas nuas, e que vêem nos seus olhos que está a experimentar o mesmo gozo que vocês enquanto também vos acaricia…

Têm-no bem à frente dos olhos? Bem, agora:

2: Imaginam que estão a trabalhar numa encardida e obscura fábrica colocados durante oito horas numa infernal linha de produção…

Bem, se são capazes de transpor nem que seja a mais mínima porção das emoções experimentadas no momento 1 para o momento 2, têm a minha mais absoluta admiração e a minha mais absoluta raiva.

El arte de la vida

Sobre el Tiempo, la búsqueda, portales sensoriales y prestidigitadores existenciales

Alguna vez has salido de la ducha y al observarte las manos te has dado cuenta de que parecen las manos de otro ser, distinto y alarmantemente viejuno? He ahí una de las múltiples señales sobre su existencia que nos envía el omnipresente y todopoderoso, ese al que los monoteístas temen a la par que adoran y que a mí me gusta llamar Tiempo.

El Tiempo señoras y señores, esa dimensión que entendemos como lineal, marca el ritmo y la intensidad de las emociones que nos despierta todo aquello que acontece en nuestra existencia. Esas manos arrugadas que no nos pertenecen son solo una confirmación de que nada es eterno, de que la transformación es inherente a la vida y que tarde o temprano esto se acabará.

Al oscuro y temido final lo percibimos todos en mayor o menor medida, pero ¿qué hacer con esa existencia finita llamada vida que el maldito Tiempo se encargará de arrebatarnos?

Ciertamente no soy ningún experto sobre cuestiones trascendentales, no obstante puedo afirmar sin temor que a lo largo de mi corta vida he conocido a personas que parecen tener la ansiada respuesta. Se trata de auténticos prestidigitadores existenciales: malabaristas emocionales que subliman el arte de elevar la pasión en cualquier situación, funambulistas temporales capaces de mantener el equilibrio incluso en los escenarios más adversos, pintores sensoriales con la habilidad de dibujar estados anímicos sobre todo tipo de lienzos… en definitiva, se trata de personas que han logrado (y siguen logrando) ser escultoras activas de su propia existencia.

A este tipo de semidioses se les reconoce rápidamente tanto por su sonrisa casi permanente, así como por las emociones que despiertan en lo más profundo de las almas de los simples mortales como yo y que normalmente oscilan entre la admiración absoluta y la rabia, mucho a mi pesar, también absoluta.

Después de compartir varias vivencias con algunos de estos entes superiores, decidíj estudiarlos exhaustivamente y en secreto. Tras recoger y analizar rigurosamente montones y montones de datos sobre su comportamiento he llegado a una serie de conclusiones que se resumen en la siguiente afirmación: estos cabrones son capaces de experimentar la sensación de que dominan y manipulan a su antojo a ese jodido Tiempo que todo lo puede.

Me explico, a mi entender la vida es una búsqueda que tiene como objetivo final la estimulación individual. Una persecución encarnizada para dar con el individuo apasionado que todos llevamos dentro. A nuestro alcance tenemos infinidad de posibilidades, incontables portales sensoriales se abren a nuestro alrededor… la búsqueda vital se basa en desvelar que portales cruzar para encontrar los mundos delirantes a los que entregarnos con ardor.

A algún ingenuo esto de cruzar puertecitas le parecerá fácil, pero no lo es ni por asomo. Existen personas que encuentran rápidamente una pasión a la que entregarse, otros encuentran varias y a otros les cuesta toda una vida apasionarse por algo. Además existen varias barreras a priori infranqueables. Muchas veces no tenemos opción y obligados a punta de pistola cruzamos un portal que desemboca en un mundo sensorial que no resulta ser de nuestro agrado; otras veces simple y llanamente nos equivocamos, lo que nos lleva a experimentar el miedo a cruzar otros portales; y para más inri constantemente nos encontramos a nuestro ineludible amigo: el Tiempo, que entre otras cosas limita la cantidad de puertas que podemos cruzar a lo largo de nuestra existencia, aumentando así el miedo a la equivocación.

Nadie y digo nadie, hace siempre lo que le gustaría hacer. Todos tenemos obligaciones que nos resultan odiosas y que transcurren lentamente a través de la línea temporal. Por otra parte, cuando nos encontramos con algo que nos apasiona el Tiempo se encarga de reducirlo a un breve instante de satisfacción (que majo Él).

¿Jodido verdad? Pues no para todo el mundo. Existen esas personas tocadas por un haz de luz divino, artistas puros que son capaces de acelerar los momentos que a otros se les hacen mortalmente lentos y si les apetece, de frenar los momentos que a otros les pasan por delante como un rayo. Esta sorprendente habilidad de manipulación temporal los convierte en seres extraordinarios. A los muy cabrones sus equivocaciones no les resultan tan perturbadoras ya que pueden encontrar una pizca de emoción en casi todo, así son capaces de eliminar el miedo de la ecuación y por tanto pueden cruzar muchos más portales sensoriales que los humildes mortales, viviendo una existencia llena de experiencias.

Para finalizar me gustaría proponeros un pequeño ejercicio lleno de topicazos:

1: Imaginad que estáis desnudos yaciendo con la persona más atractiva que vuestra mente pueda imaginar en un hermoso campo rodeado de flores silvestres, en un templado día primaveral, imaginad que acariciáis suavemente su espalda desnuda mientras observáis en sus ojos como ella también está experimentando el mismo gozo al acariciar vuestro torso…

¿Lo tenéis? Bien, ahora:

2: Imaginad que estáis trabajando en una mugrienta y oscura fábrica apostados durante ocho horas en una infernal línea de producción…

Bueno, pues si sois capaces de trasladar aún que sea la más mínima porción de las emociones experimentadas en el momento 1 al momento 2, tenéis mi más absoluta admiración y mi más absoluta rabia.


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Marc Hierro, “A arte da vida”, em Paraquedas 2 (2014). Disponível em: www.revista-paraquedas.net/a-arte-de-viver/a-arte-da-vida/ (acesso em 25/05/2017)