O que são caras sem corpo? São caras que não precisam de corpo. Pois já que são pedras nunca serviriam para se deslocar pelo mundo, os seus membros e tronco seriam inúteis, só a cabeça de tornaria necessária para pensar, em silêncio imóvel. Afinal as cabeças não precisam do corpo para se revelarem, em grupo, presenças observadoras, tudo perscrutando – pedra que vive quente e dura.
As cabeças sem corpo têm sexo. Constituem o auditório dos poucos que por elas passam, são povo em manifestação pacífica reivindicando os seus motivos de origem.
Comunidade autónoma, apesar da estaticidade, lá se entenderão nas suas funções “sociais”. O que é certo para quem as olha é a retribuição de um outro olhar espectacularmente atento, habituado a observar as acções encenadas pelos humanos.
Detêm os olhos sempre grandes e abertos para não serem facilmente acusadas de ausência, indiferença. São semelhantes, são uma repetição.
Vivem por baixo de um telhado que as protege do tempo ruim que rapidamente lhes levaria os traços coloridos.
Multiplicam-se, todos filhos da mesma mãe que, por sua vez, a alguns atribui maternidade, colando-lhes pequenos filhos nos braços que não têm.
I
A mãe, Ema, é uma mulher que aparenta preocupação com a vida, tanto com a que passou como com a que virá. Vive com poucas palavras e com mais três irmãos, numa quinta afastada de tudo onde cultivam frutos da terra, tratam galinhas e assistem a alguns programas de televisão.
Os irmãos querem-se bem entre si e à sua solidão, mas amar, amar só ao Deus católico.
Obedecem às suas rotinas que se distinguem nalgumas tarefas especificamente destinadas a cada um. A Ema nunca cozinha mas lava sempre a louça, equipando-se previamente para não se sujar. A Ema almoça muito rápido e sempre em pé, para depois poder esconder-se do resto da pequena comunidade. Às vezes encontramo-la deitada debaixo de alguma árvore.
Num destes dias normais, aos seus 69 anos, a Ema decide que quer fazer escultura e descobre-o fazendo. Era um segredo revelado no dia em que acabou a sua primeira obra, uma cara gritando esculpida na pedra, com algumas linhas numa pasta de terra e cola. Quis mostrá-la a alguém. As fugas após o almoço passavam a existir num ateliê improvisado, cheio de pedras apanhadas em caminhadas, que na sua cabeça já eram cabeças.
Durante três meses Ema trabalhou sem cessar até que, por uma questão espacial, a completude do ateliê se traduziu numa pergunta muito pertinente – para que serviria tudo aquilo? Parou e recomeçou a sua rotina no campo.
II
Há algo que a impele a retomar o trabalho artístico, então Ema resolve voltar a fazer escultura, optando agora pela ARTE PÚBLICA: embeleza os caminhos dos montes transformando as pedras grandes em animais variados – rãs, pássaros, peixes fora de água, lagartos, texugos. Pode ser que alguém repare!
No ateliê, as cabeças não são esquecidas, são erguidas à vez pelos seus troncos, também em pedra, funcionando como plintos. Dar corpo tornou-se uma necessidade, uma continuação vertical.
Chega a primavera e a actividade artística de Ema celebra agora um ano. A vida prossegue.
Há uma proposta de Exposição na cidade.












