Auto-retrato – Ogni di pittori dipinge-se (What matter who's speaking), 2014. Pintura / Instalação. Óleo sobre tela. 40 x 33 x 3 cm
O ser da linguagem é o apagamento pela visibilidade daquele que fala.
Seria tão falso procurar o autor no escritor real como no locutor fictício; a função autor efectua-se na própria cisão – nessa divisão e nessa distância.
Michel Foucault (O que é um autor?, p. 19 e 55)
Trata-se de um auto-retrato ficcionado, que subverte a expectativa de verosimilhança que decorre do género evocado, onde a noção de corte sustenta o desfasamento entre autor e referente representado: o maxilar, lugar da voz, é descontinuado do resto do rosto.
O título alude a um preceito de Leonardo da Vinci (1452–1519), no qual sustenta que aspectos da personalidade e biografia do artista são passíveis de identificação nas características formais da obra. Esta noção é confrontada com a crítica de Michel Foucault (1926–1984) às categorias de autor e de sujeito, na recusa da unidade entre autor e obra, e, por conseguinte, da leitura biográfica. O subtítulo remete para uma citação de Samuel Beckett (1906–1989), usada por Foucault, e que consubstancia menorização do sujeito e crítica à categoria de autor, negando a projecção do elemento biográfico na obra. Abordam-se dois aspectos da crítica foucauldiana: o diferimento entre autor e sujeito singular; e a desaparição do indivíduo sujeito como condição essencial de instauração de discurso. Neste sentido, o gesto autobiográfico, e a sua tradução para o plano pictórico através do auto-retrato, consubstanciam uma situação paradoxal: enquanto figuras da linguagem, são modalidades próprias do discurso, assentes na desaparição do indivíduo; ou seja, afirmam-se por aquilo que necessariamente negam – o sujeito singular – recorrendo no que Paul De Man (1919–1983) designa de desfiguração (defacement). O corte, que desfigura o rosto representado, afirma o desfasamento entre autor e referente, problematiza ainda a solução díptico, integrada na continuidade espaço–temporal do suporte pictórico.
Jorge André Catarino (Lisboa, 1985) vive e trabalha em Lisboa. É mestre e licenciado em Pintura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, respectivamente em 2012 e 2008. Foi bolseiro Erasmus no Tampereen ammattikorkeakoulu, em Tampere, Finlândia (2006). Expõe regularmente desde 2007. A par da prática artística, publica artigos de investigação sobre arte contemporânea e desenvolve projectos na escrita de humor e ilustração.
Jorge André Catarino, Auto-retrato: Ogni di pittori dipinge-se (What matter who's speaking). Em Paraquedas 2 (2014). Disponível em: www.revista-paraquedas.net/a-arte-de-viver/auto-retrato/ (acesso em 05/26/2017).