Arte e vida unem-se1 na extinção mais perfeita de todos os porquês do mundo, desenlaçando-se em nós. Fundem-se1.2 na eliminação absoluta de toda e qualquer “arte de viver”, na mais perfeita inadequação desta expressão, na desactualização mais concretizada das ideias que a presidem e no fracasso total dos projectos que a põem em perspectiva e que a perseguem. Quando arte e vida formam1.3 um a humanidade resolve-se1.4 com o nada.
Arte e vida nascem unas no perpétuo nascer (atópico e incognoscível) do presente – do sempre. Crer numa “arte de viver” será desejar intensamente estar lá, estar aí, no presente, e aceder conscientemente a essa unidade, fomentando a profunda ilusão (que só poderá ser ou absolutamente feliz ou totalmente infeliz) de que esse estado nato, esse acontecimento nascente e natural, possa ser fenomelogicamente conhecido, induzido, provocado, intencionado, criado por via artificial. Mas uma arte de viver não une nem pode unir arte e vida, antes as reúne. Para reunir é preciso partir da desunião – do artifício humano que parte do tempo e do espaço partidos à partida em dois – separando2, dividindo, e sub-dividindo sempre, para poder relacionar e engendrar – por vezes com arte – a optimização de articulações duais. Qualquer “arte de viver” tomaria o partido de partir do que está partido em dois à partida. Mas, no entanto, move-se para essa vertigem do um, potenciando relações intempestivas entre arte e vida, e visando pacificá-las3 em comprazimentos, recalcamentos e catarses (limiares de prazer, por vezes dolorosos; limites satisfatórios, sempre insuficientes), e não há catarse para a violência existencial do uno, para a sublimidade bruta do ser a ser sendo. Partindo em dois, uma arte de viver seria como que uma força que contraria o magnetismo de dois ímanes, interrompendo o campo magnético no pico de atracção, permitindo que os ímanes se aproximem o mais que podem, por vezes estimulando colisões (algumas delas terroríficas, mortificantes, petrificantes) mas sempre controladas para não se destruírem mutuamente. Como o amor (o eros como força)4, uma arte de viver implica um cuidadoso culto da separação em atitudes, rituais e formas de vida que gerem esse intervalo entre arte e vida, conservando a possibilidade de interacção que uma unidade total não permitiria, e prestando manutenção a um “dois” em que se apoia e que ajuda a germinar de par em par. No jogo duplo dessa dualidade, apresenta-se o espectro da representação que mundifica o nosso mundo humano, a nossa mundividência. Nessa dança, geram-se as imagens, os duplos, germes da ficção e do simbólico, de onde germina toda a linguagem, a verdadeira mentira, que fabrica o real e que alveja a verdade (a uma distância telescópica) no seu coração mais profundo, oculto, desconhecido e presente. Separadas, a arte dá forma, e a vida é forma. Mas uma pretensa “arte de viver” não forma; formula|ria|. Arte e vida, formam – com o tudo o resto entre elas – um mesmo ser natural5 e só, só e apenas, no seu perpétuo nascer, insubstanciado no presente. Uma arte de viver geraria fortes e belos laços estetizados entre nós; a união de arte e vida – em que estética e ética são um, são o mesmo18 – gera-nos brutos e violentos nós.
No impossível advento uno da arte em vida e da vida como arte (o advento impossível daquilo que nunca advirá mas que apenas devém e não cessa de devir uno)6, toda a “arte de viver” passaria a ser obsolescência já superada e absolutamente7 desnecessária. De cada vez que esse devir provém8 (como real força), qualquer “arte de viver” tornar-se-ia redondamente demitida por aquilo que mais deseja (e em que mais acredita quem nela crê): eclipsar-se-ia na união indiferenciada da arte com a vida e da vida na arte. Nos instantes em que se sente a prospecção dessa união indistinta num mesmo e singular sim (o violento, e irredutível sim do uno, da singularidade única da existência) toda as quimeras de uma “arte de viver” constatam-se – de facto – na sua única verdade: a de ser “mera” formulação linguística e conceptual. Os seus lemas e as suas ambições quedam-se aí dispensadas e relegadas ao cumprimento da sua inoperância – e é missão cumprida! O anúncio que carregam consigo evapora-se, pois já não há arte/e/vida em relação, já não haverá um_dois, já só haveria um_um, um só, um só plano, que é pleno, que é uno, que é só, que só é, só, que é um, que, só, é; é; é; é; e só, assim, só, pode ser. Aí, no presente, o sentido que “arte de viver” enuncia cai, sendo. Já não pode acompanhar a experiência nem dialogar com o mundo, não tem referente, já não pode fomentar qualquer dialéctica dual, argumento ou significado. Só neste movimento de anulação “arte de viver” deixa de ser uma proposição lógica, um enredo, um arquétipo, um esquema, uma abstracção, e passa a ser processo em exercício. Como uma linguagem em uso, uma arte de viver teria de se esquecer de si própria, arrastada pelo esquecimento do si próprio da comunidade que a carregasse9, des-subjectivando-se.
Só enquanto se apaga e desfuncionaliza perdendo todo a correspondência empírica, todo o cabimento, quando já não é conceito, já não subsume nem é conforme a(o) nada, é que uma “arte de viver” vai nascendo como acontecimento prático, e só neste estádio [inconsciencializado, e já não apenas inconsciente] de ignorância10 sobre si mesma pode o processo existir. Só quando já nenhum impulso pulsar na compulsão de dizer “arte de viver”, podemos eventualmente estar a fazê-lo: a viver arte, a fazer da arte vida e da vida arte (a matar a “arte”, a matar a “vida”, a matar o nome do inominável). Só no momento em que “arte de viver” perdeu todas as suas âncoras de necessidade lógica num nexo causal, só aí, talvez, na dissolução de todos os nós, é que esse seu desejo de unificação se implementaria enquanto praxis, e o uno apareceria sensível, sensorial, sensual, passando a ser sensação, sentimento, sentido, num único presente. Só aí, no presente, “arte de viver” afirma-se alegremente como sem-sentido, subtraindo-se totalmente à cadeia significante, e pode uma “arte de viver” (des)aparecer e singrar – sem consciência em nós – pois só agora se anulou enquanto proposição lógica e conceptual, só agora deixou de existir metafisicamente e só, agora, passou a existir naturalmente. Só agora “arte de viver” desaparaceu nascendo, só, agora, deixou de “inexistir”11 e existe agora, só, sem nome. Só, agora, nasce a desaparição da distinção entre arte e vida e vai aparecendo o apagamento de toda a arte de viver. Neste presente sem nome, o do uno, já não há obras de arte.
Ontem, aqui – no “hoje”12 – o intervalo entre arte e vida aconteceu13 num total amalgamento e imiscuição da arte na vida – a arte é vivência e nasce viva na vida – faz-se. Esse intervalo assegura que arte e vida existem ao mesmo tempo (desunidas uma na outra, reunidas) e que a experiência do seu diferir é uma experiência de contemporaneidade. Mas lá – no presente – arte e vida nascem5 juntas, num mesmo tempo, sem necessidade (lógica) alguma, e não é aí que residem vínculos, pois os elos travam-se aqui, hoje, onde há um dois: vida; e; arte; …
Hoje apenas falar podemos, projectando no discurso a imagem que fazemos do uno e da união da vida na arte num mesmo fazer, e não da unidade que aí e agora temos o poder de fazer acontecer aqui. Até lá! Até ao presente, que nunca é agora e é só sempre, até lá, até à quimérica concretização do humano, há a arte e há a vida, e há a arte de viver como inconcretização do uno, inconcretização em que arte e vida participam uma na outra, fazem parte, articulam-se, conjugam-se na sua disjunção, conjuntam-se na sua desunião, subsumem-se mutuamente, revezam-se em aglutinações de uma na outra, são meramente contemporâneas. Até lá, até deixarem de somente se contemporanizar para se unirem num só presente, arte e vida combatem numa metamorfose recíproca de mútua penetração, e continuaremos a trilhar um caminho de presumíveis propósitos, em busca de uma arte de viver que seria um trilho de finalidades sem fim. Enquanto assim for, haverá arte, e haverá vida, e enquanto assim for, a humanidade ainda se reconhece a si própria (reconhece-se nas necessidades que regem a necessidade de uma arte de viver).
A necessidade de que surge a arte não terá sido uma necessidade lógica, será uma falta primordial que proveio de uma falha qualquer e que qualquer falha em falta pode motivar. Um desconhecido ausente mas vital a que se responde com uma incognoscibilidade, a arte. Sem o pressentimento (que por vezes roça apenas o preconceito) de uma lacuna primordial, nós somos nada, e, até lá, nós não somos nada. Para não ser nada é preciso uma arte de viver, é preciso fazer do espaçamento uma fractura exposta. Da perpetuidade desta humana irrealização (que separa arte e vida) depende o desejo humanizante de concretização (que necessita de uma arte de viver), e é aqui, hoje – no irreal irrealizado – que se realiza a perpétua inconcretização do sentido [ sim “o (…) da vida”, deixa-te de redundâncias!, “Sim, o (…) da linguagem, obviamente!”. – O virtual? – Sim! – O real? – Sim! – O real? – Não! – O virtual? – Não! – Qual? – O mesmo! – A verdade… – A verdade… «– «– Ei-la », a ficção da vida, a verdade da arte – o mesmo. ].
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(Arte e vida unem-se na extinção mais perfeita de todos os porquês…) Sim, nós cremos em nós e só podemos e temos o poder de crer que a obra de arte incorpora-se num sistema de porquês14 (que para ela inventamos) – um sistema construtivo, qualquer que ele seja – mas nunca nos atrevemos a confundi-la com um esquema da Razão. Da sua imanência emanam esquemas lógicos, conceptuais, iconológicos, semiológicos, axiológicos, etc., e isso sim, é abstracção em que a imagem se fez medium veículante. (É por ser linguagem?) Mas então, se assim cremos, por que é que sentimos que todo esse universo de relação, esses vínculos de necessidade e nexo (flutuações entre o entendimento e a compreensão), só atingem total sucesso quando caem, quando já não servem, quando se esgotam, quando ajudam a conduzir à sua própria anulação, quando prestam auxílio à sua própria desadequação. Parece que só da demissão das incontáveis e instáveis hipóteses de racionalização interna de significados que a obra de arte é susceptível, pode nascer o mais pleno e aberto sentido da obra de arte. A lógica que emprestamos à arte em obra, os enigmas com que a insuflamos, os códigos com que iludimos resoluções de que ela não carece, esses e outros artifícios da obra, têm de ser solidários com a ilógica dos mais efectivo efeitos poéticos, estéticos, éticos, e políticos da arte. Estranhos e paradoxais pêndulos estes. Tanta estranheza naquilo que é mais intimamente nativo ao humano. Do impulso à efectivação, dá-se a afectação que afecta os afectos do sujeito, talvez todo o espectro da subjectividade seja afectivo e inteiramente fisiológico (N.).
Com a arte, quando a crítica e a poética se indistinguem em nós, quando a instrumentalização cognitiva implode, já não pode haver sensório; sensação; sensibilidade; sentido; sentimento – há só a brutalidade de um Sim sem porquê nem consentimento, em que tudo isso ocorre uno, é-se presente num Sim assim, presente, sem tempo e sem espaço. Participa-se no mesmo, saindo-se das contemporaneidades e entrando no presente, sem tempo e sem espaço, em que o ser é só ser, é só sendo. É só. É, só só.
.de Dentro da linguagem (de onde não há fora?!) a mesmidade15 entre arte e vida é uma abertura (ou uma janela partida, um furo de liberdade num balão de fôlego, um buraco de traça, um rasgão têxtil, uma dolorosa e violenta chaga) paradoxal. Paradoxal, pois! pois (e não “porque”) movimenta-se para uma das mais imanentes formações16 de “nós” enleados nela – aquela forma de nós que é tão distante e ascética quanto latente, intravenosa, comunidade estética assente no espírito (linguagem, “simplesmente”) que é tão intelectualmente ideal quanto terrenamente fisiológica, feita dos mais metafísicos desígnios e dos mais corpóreos e viscerais humores, comunidade erótica – sim, é assim, ininteligível. Na solidão mais singular de tudo o que é o mesmo, surge a mais forte comunidade. É este o paradoxo a que nos dispomos quando expostos à força da arte, o paradoxo do mais comum em nós. A arte revela-nos o nós mais comum a partir da solidão de cada um, e quanto mais afastado e ascético é a dimensão subjectiva, mais fortemente enraizada na terra, no mundo, no outro ela acabará por se revelar. (E que sentido faz isto? Nenhum! É sem-sentido. É a dimensão ética mais nativa da arte, o cultivo estético do comum e a comunidade do culto dos nós entre nós. É aí, no presente, onde já não tem sentido falar de estética e ética, pois já são corpo incorporado na vivência e no viver, que a arte se apoia no abismo da vida, e que a vida se ampara nos precipícios da arte. Caem juntas! Caem juntas nesse imparável combate pela união.)
Há, então, uma solidariedade paradoxal nesses nós solitários em cada um de nós, e a arte põe-nos lá mais intensamente (põe-nos lá, expondo-nos aos nossos nós). Talvez essa paradoxalidade da solidão solidária, possa ser a residência mais forte do que Kant17 chamava sensus communis. Uma arte de viver seria o império comunitário que nutriria o sensus communis como o estado exclusivo da natureza social humana – Título: “Arte de viver” como programa político impossível. Que utopia é esta? Que rótulo acoplar a esta política onírica da arte em vida e da vida em arte? Comunismo? Anarquismo? Surrealismo? Não pode haver programa ou manifesto para a política da arte. Política, em arte, é uma força que ecoa em efeitos imediatos e não em consequências (as consequências são fruto das políticas aplicadas à arte, da instrumentalização ideológica da arte, da política corrompendo a arte). As consequências, são do domínio da cultura. A política imediata da arte é um movimento completamente intrínseco à vivência da arte. Pode revolucionar a subjectividade e o nós interior e comunitário de cada um, singularmente. Nada tem que ver com o embandeiramento estético, panfletário, publicitário, propagandista, ou bélico das expressões artísticas.
Em arte o sentimento do mesmo dá-se pela mesmidade entre ética e estética. Se quisermos – mas só mesmo se quisermos crer – podemos constatar como estas duas categorias podem engavetar tudo aquilo a que chamamos pensamento, e tudo o que com ele vamos inventando para nos conseguirmos identificar a nós próprios como humanos (afectos, emoções, valores, atitudes, juízos, decisões, credos, sentimento, sensibilidade, i.e., um grande etc., ao qual chamamos, no vulgo, humanidade). Claro está que ser mesmo, autoriza o total abandono da diferença, da distinção. Acreditar na mesmidade entre estética e ética implicará o abandono total destas duas formulações conceptuais, “ética” e “estética”, anulará a utilização de ambas e de cada uma delas, conjuntamente e isoladamente, dissipando-as na indiferenciação, na indistinção. Mas como tornar a mesmidade um dado, sem começar por separar o que é uno, sem variar, sem partir de um repartir, sem corromper para entender, sem inventar múltiplos virtuais na incompleta insegurança que são os conceitos?
A crença na mesmidade entre ética e estética parece ser inseparável da crença na mesmidade entre arte e vida. Um sistema regido por esta crença na mesmidade está em implosão, pois a crença na mesmidade perturba ao ponto de destruir qualquer dinâmica sistémica do diferir em que se desdobra qualquer sistema lógico. A mesmidade inquina toda a cognição assente num movimento sistémico, todo o conhecimento que se adquire por sistematização mecânica do pensamento e da linguagem. (Daí que não possamos dizer que essa mesmidade exista, mas sim mostrá-la, na sua paradoxalidade, expressando-a através da arte na mesma linguagem que a exclui, e sentido-a na experiência da arte. A experiência da arte mostra o sentido da mesmidade entre ética e estética a partir da comunidade que cria esse plano valorativo e que o vive.) Seria nesse plano valorativo de mesmidade que a mais humana comunidade entre os homens surgiria, na mais perfeita solidão comum a cada um de nós, a comunidade mais singular, una, um uno, um um. Vivemos realizando essa inconcretização da mesmidade. Viver é estar no epicentro constante desse fluxo realizante. Não a concretizamos – morreríamos, morreríamos pois estaríamos no estado mais bruto do ser, em que já não faz sentido falar de vida, pois a vida seria só, seria só vida, só vida vivente, só ser sendo. Mas é essa a tendência e é esse o princípio (ethos) da arte, o mesmo que o da natureza: nascer sempre e só nascer perpetuamente.
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Provindo de absoluto em absoluto e de todo em todo, a união da arte na vida e da vida na arte será para nós sempre remota, e parece não haver como senti-lo (nem como fazer sentido do uno) de outro modo. Devindo de parte em parte e de tudo em tudo, o movimento dessa união (o ser gerúndio de caminhar até à inacessível unidade de vida e arte no presente) aparece como tudo o que nos caberá suscitar, assistir, acompanhar, experienciar e experimentar. Escapa-nos o um do sempre em sempre, porque já cá estamos, a participar no mesmo presente unitário da vida e da arte, o tão existente quanto inapurável uno, que formam com tudo o resto (o um único, o nosso um, o um de todos, a singularidade inapurável da existência, em que espaço e tempo são um, um presente “sem dimensão” e “sem medida” [CHILLIDA, Escritos], incognoscível e informe). Talvez só nos caiba (pois o uno não adquire cabimento em nós) o esforço de destacar e compreender a naturalidade, a natureza, perpetuamente nascente, desse movimento, desse sentido, nele “apenas” participando, sem poder contemplá-lo, representá-lo, objectificá-lo, percebê-lo, entendê-lo, mas apenas sentí-lo. A sensibilidade [sensório, sensação, sentido, sentimento] está toda una e imediata no presente imediato que a arte (o medium) media e faz acontecer – suscita – como efeito (poético, político, ético, estético – o mesmo), e o presente da mais autêntica lágrima vertida, já não é aqui, e o da mais espontânea gargalhada, nunca é aqui. Talvez por isso tenha de se impor sempre, entre arte e vida, esse “e” paradoxal – uma invenção, uma ficção – que une enquanto separa, que divide juntando, que diferencia identificando. Esse “e” é o mesmo “e” que preside a todos os binómios e dualismos que a linguagem e o entendimento vão elegendo como primordiais e fundamentais. É um, e é um mesmo “e”. Esse “e” conserva a mesmidade, assim, em potência, e qualquer arte de viver conserva o uno assim, porvir.
Até lá, até à dissolução de toda a razão, o mesmo deixa-se abrir num paradoxal e que está entre todas as formulações “arte e…”. Arte e tudo o que na vida recebe da parte do nosso entendimento uma relação dual e matricial com “arte”, relações a que a linguagem tende a dár-nos, lança-nos lá enlaçando-nos nos nós que inventamos nela. Esse e apresenta-se como um ponto cego conceptual (não por para ele haver falta de conceitos, mas, pelo contrário, porque esse [e] é exposto; expõe, denuncia, e expõe-nos à indeterminabilidade excessiva do excesso de conceptualizações), um excesso de que brota o nada inabarcável a que estamos expostos. Como seria se esse nada, se esse “e” (i)nominável fosse dizível, representável? – Não haveria vida, só haveria arte!(?) – Não. Não haveria vida, não haveria arte, haveria um mesmo sem nós. Arte e vida unem-se num mesmo que desfaz todos os nós, um mesmo inconcretizável que está para lá de uma arte de viver, sendo que a arte de viver, na sua precaridade – precaridade alegre, precaridade triste – é o que nos resta e o que resta em nós. Por enquanto, no limite, arte de viver será, na prática, uma entropia funcionante que exacerba nós comuns a todos nós, gerando uma erosão que vai pulverizando a esperança e o sedimento político de nós universalmente comunitários (utópicos), com que a humanidade se possa atar ao ser, e em que “…estética e ética são uma e a mesma coisa…”18 socialmente, e para lá da metafísica e da mística, na “magia” do real, no presente, na vivência em arte.
Parece que o paradoxo aparece radicado na paradoxalidade da imagem, de toda a condição imagética e simbólica do humano – liberdade enclausurante de que são reféns todos os nós. Talvez sejam as imagens da arte, i.e, as imagens que se fazem em nós e que aparecem em nós diante da aparência sensorial da arte (da arte, mais do que de outros fenómenos da vida) que ultimam esta indecifrabilidade, pois fazem-nos tender para a constatação de que [não] há nada para decifrar, e reforçar que nenhum paradoxo é decifrável, e que o desconhecido é estático, e que a incognoscibilidade é fixa, e que imutável é tudo aquilo que não sabemos, e que intransitivo é o desconhecido, e que é aí que reside a nossa mais íntima identidade, pressagiando que lá existe uma fissura que antecede todas as roturas, e que o desejo é intervalo na residência de um hiato perpétuo que apelida de anedótica a vontade, no âmago mais definido da indeterminação, no cerne mais indefinido da ignorância. Este é um dos seus sins irredutíveis, um sim que se dirige a uma negatividade: sim, não há (nem tem de haver, nem pode haver, nem haverá) solução; e onde impera a insolubilidade, não há mistério, tão pouco enigma; sim, paradoxal. Para mistérios e enigmas, estamos cá nós, com discurso; o sim paradoxal ambienta-se onde só ele basta, e convive com a indizibilidade. Não se reduz abaixo dele, não se vai lá dentro, nada jaz em latência; não se constrói, não se destrói, não se produz, não se deduz (só seduz) – é uma experiência sentimental toda e ao mesmo tempo numa imediatez de humanidade em nós que vivemos onde impera o sentimento disto mesmo como paradoxalidade existencial [Nunca lá estamos (?)], entre a perpetua presença de um não que é o da morte, e o seu contacto infinito com um sim vital. A imagem da arte surge no âmago, ou num dos múltiplos âmagos (que são todos) desta turbulência disjuntiva, pois, dizem (e alguns assim o sentem), é a consciência (real) da morte pelos vivos e a projecção do nada (virtual e positivo) vivo que é a morte (negatividade fictícia) que força (pelo antagonismo de “pressões”) o engendrar-se da arte – e de tantas outras maravilhosos forças que poderiam ter recebido esse nome – no ser espiritual da linguagem. A arte pode assim afluir de um rio de nãos e de projecções de nada para ir fazendo um sim de afirmação vivificante, um sim só assim, só (,) aparente onde [0] nada esconde.
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_unir-se-iam / uniram-se / unir-se-ão / uniam-se (…? pode o uno ter vários modos e diferentes tempos verbais para o verbo unir? Terá de abarcar todos os modos, tempos, espaços, nus, num só?) || 1.2 “…[…]-se-iam…” / “…[…]-se-ão…” / “…[…]avam-se…” / “…[…]iram-se…” || 1.3 “…[…]ram…” / “…[…]vam…” / “…[…]sem…” || 1.4 “…a humanidade […]-se-ia / […]-se-á / […]via-se…” ↩
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Esse afastamento é o seu a priori, tão artificial como todos os a priori. ↩
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Ao momento mais ambientado desse trabalho de paz chamaremos Ócio. Não admira que, na história, “arte de viver” surja tantas vezes associado a um estádio ocioso, de um quotidiano desabituado, não habitual, fora do hábito. E – não sejamos tacanhos – esse pode ser um ócio dos ricos, mas também dos pobres, de burgueses, de proletários, de latifundiários e de camponeses (com quantos nomes descrimina a história o indivíduo – o “ser humano” – por quem tão raramente fala?), uma paz indistinta em que se acha terreno fértil para dizer “arte de viver”. O estádio ocioso imposto por qualquer arquétipo de uma “arte de viver” tem modos dúbios e ambíguos de seguir o princípio de prazer que nele lateja. Em primeiro lugar o Ócio não é sinónimo de inacção e não é a ausência de trabalho. Será, sim, um prazer que dá muito trabalho e que acarreta sofrimento (paz não é sinónimo de felicidade, nem a felicidade o é de alegria). A possibilidade de uma arte de viver só pode nascer nessa paz ociosa que será dos poucos casos em que é preciso alguma paz para sofrer, em que é possível uma paz trágica, meditativa, onde possa imperar a melancolia, podendo até esgotar-se nela [que dizer dos sofrimentos idealizados no mais ocioso Alberto Caeiro?]. Mas as trabalhosas penas de uma arte de viver não se confundem com os sofrimentos da laboração (nem com os seus prazeres, que também os há). Pode até ocorrer ao mesmo tempo que a labora, durante a jorna, mas sendo outro tipo de trabalho, talvez aquele trabalho improdutivo de que fala o fazer do Januário. ↩
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Uma “Arte de viver” seria como que um amor erótico que reúne arte e vida sem nunca as unir. É nada na separação, como o symbolon foi nado da divisão de um mesmo corpo, sendo Eros a força de atracção entre dois, e dele nadas as formas humanas que se conhecem [Platão, Banquete (Discurso de Aristófanes)]. ↩
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Com Blanchot – e com todos os outros - reecoamos a crença de que natureza é aquilo que nasce incessantemente e não cessa de nascer, pois é (i)nata do nada, é nada do nada e nós nadamos nela – nadamos na nossa natureza nata do nada. ↩
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União suspensa num devir incessante, união que devém sempre nunca advindo. ↩
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“Absoluto”: Simile da intangibilidade (s\ sentido) [W, A lecture on ethics], é lá, que o todo se situa, bem junto ao nada, no uno. ↩
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Sim, esse mesmo momento, sim, o momento de um sim ao uno infixável, que não é instante mas instância, o presente sem fixidade, que a obra de arte almeja fixar – ao vir à presença – na transitoriedade da (sua) matéria, no instante de um sim dado ao mundo com que aparece, e se apresenta no sentido. ↩
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O que restaria? Quando o si próprio fosse esquecido pelos sujeitos de uma comunidade? A liberdade? ↩
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Aquela, a socrática, que pertence somente a todos os ontens e que só amanhã chegará, a que tem de estar cá, agora, aqui, hoje, para que, lá, aí, no presente, o todo se abra uno. ↩
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i.e., existir como inexistência. ↩
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Palavra com que a tendência histórica do espírito humano faz confundir o “presente”. ↩
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O intervalo acontecEu. | O presente nasc”e”. (Usar a linguagem com oportunismo encerra o mais significativo do engenho humano.) ↩
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≠ “incorpora um sistema de porquês”, e ⌐ “incorpora-se a partir de um sistema de porquês” (é que i. N. e. matemática…, pq a matemática almeja, i.e., ascende ou descende, a arte, já o inverso…). ↩
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Inconfundível com “identidade”. ↩
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Aqui o oposto de “formulações”. ↩
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Kant que, como nós, foi um dekantador da cognição, sempre separando o que nasce uno no pensamento. ↩
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Wittgenstein, Tratactus Logico-Philosophicus, 6.421. ↩