Episódios de vida na Arte Contemporânea, Episódios de arte na vida contemporânea

— Hugo Barata +

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“Arte Contemporânea,” este tantas vezes estranho locus objecto de simultânea discórdia e prazer, qualifica-se, desde logo e à partida, como conceito problemático ao agenciar parte da sua identidade através de uma premissa ou valor etimológico potencialmente “escorregadio.” Tamanha ordem de eventos decorre da problemática marcação histórico-cronológica que, justamente, o próprio termo cunhou, constituindo-se enquanto instante paradigmático disso mesmo o nosso Museu Nacional de Arte Contemporânea (MNAC – Museu do Chiado), em Lisboa. Esta marcação carrega, em si mesma, um constante apelo ao (des)ajustamento—uma discronia, conforme formula Agamben através da sua ideia de “Contemporâneo”1—que (na melhor das hipóteses) coloca o sujeito (ao centro) perante o óbice da deslocação permanente, amiúde sob o olhar atento (em presença) de dois tempos, que, ainda assim, parecem sempre querer escapar (abandonando-o à sua sorte).

É então sobre certas práticas contextualizadas como (instantes de) “Arte Contemporânea” que se vem construindo este exercício fugaz da contemporaneidade. Ocasião onde a política do gesto se inscreve desmesuradamente, nestes instantes clama-se a presença de um observador participante, agora já não exclusivamente retiniano, e que portanto toma parte (mais ou menos activa) deste “(in)devido jogo de vida.” Pede-se mesmo a esta figura (apenas ou sobretudo) que acredite e se envolva (muitas das vezes participando2), ainda que somente por breves instantes.3 Reequacionar o sistema individual de crenças e ideais, colectivizando a sua expressão tanto quanto possível, parece-nos, de facto, alimentar o motor desta máquina de sonhos por sonhar.


Não é com certeza por acaso que um dos artistas de maior projecção internacional, o chinês Ai Weiwei, recupera a herança (manifestamente provocadora) estético-artística de Marcel Duchamp. Segundo nos diz o próprio Weiwei, em entrevista a Hans Ulrich Obrist, “Duchamp ensinou-nos que arte é e está acima de tudo ligada ao gesto, momento esse que simultaneamente a convoca e apresenta junto de uma comunidade que lhe confere valor,”4 autorizando-se por conseguinte a projecção de uma esfera participativa que confronta (em parte, também conforma e agrega) um/o corpus social.5 Não obstante, verificamos que Weiwei, ao invés da mitificação do artista/criador por exclusão ou omissão relativamente ao meio em que se insere, desenha e explora soluções de participação que contemplam a natureza colectiva (ou do colectivo) do seu projecto, demonstrando uma forte filiação social nas práticas que coloca em marcha e de entre as quais o seu famoso blog se destacou enquanto instância mais visível (a exemplo da participação em 2007 na Documenta12 de Kassel, com o projecto Fairytaile6). Weiwei declara-se assim apostado no desenvolvimento activo do seu papel de “artivista” convicto.

Antes de prosseguirmos, talvez seja oportuno resgatar, ainda que muito brevemente, o pensamento de Jacques Rancière numa formulação versando a “partilha do sensível.” Segundo este autor, a arte deve paradoxalmente manter-se autónoma—Rancière reclama-lhe um espaço próprio, afastado, ou talvez melhor, dissociado daquilo que atendemos como o “mundo real”—por forma a poder, materialmente, cumprir um qualquer desígnio social. Esta antinomia que combina o político e o estético resulta do complexo conjunto de tensões e colisões debeladas na liça entre autonomia e heteronomia.7


De regresso ao artista chinês, percebe-se desde logo que o mesmo se enquadra (e se esquadra) particularmente bem no regime duchampiano do criador (enquanto) transgressor quando Weiwei decide documentar aquilo que se classificará como uma prática performativa, efémera portanto, onde o próprio artista, num conjunto de três imagens fotográficas,8 (re)produz iconoclasticamente um acto de ruptura com o passado—ainda e também para com a “instituição Arte.” Para tal, deixará Weiwei, ao que parece voluntariamente, cair das suas mãos um vaso/urna que de imediato se dirige para o chão, instante onde aquele, consequentemente, se desfaz em pedaços. Até aqui verificamos que o valor de transgressão é ainda apenas aparente, uma presença latente manifestada no instante em que contemplamos o título da obra: Dropping a Han Dynasty urn (1995), literalmente transcrevendo o gesto ali empreendido—o título aparece enquanto âncora de leitura da obra, recurso comum a determinados intérpretes e/ou linguagens artísticas.

A profanidade do acto de Weiwei, aos olhos de um qualquer devir patrimonial, decorre imediatamente do facto daquele precioso objecto—único, auráticamente disponível, ou prenhe de aura se se preferir9—hipoteticamente pertencer a um passado remoto, no caso da história da China, funcionando o mesmo (pelo menos) enquanto documento material da civilização que o produziu. Ora esta profanidade é ou pode ser colocada em causa a partir do momento em que a significação inerente ao próprio acto possa deixar de ter lugar, sendo para tal necessário apenas que o vaso/urna em uso se qualifique como qualquer e comum bem ou produto de consumo subtraído (ao real) ao universo quotidiano do presente, deslocando desta forma a esfera de poder significante do próprio acto. Quanto à provocação, essa fica inabalavelmente colada ao gesto e ao actor/autor da sua perpetrada re(a)presentação.

Como salienta Catherine Grenier, o pólo da destruição activa, por sua vez, o seu imediato contrário, abrindo-se um ciclo dialéctico que entretanto cede lugar à criação. Com efeito, no acto de criação como concebido pelos modernos, destruição e criação classificam-se como duas faces de uma mesma moeda. O artista destrói para criar na mesma medida em que cria para destruir, confirmando-se desta forma o designado ciclo.10

À subtracção das paredes (ou dos muros inexistentes no “Museu Imaginário” de André Malraux), acresce adicionar o desmembramento, e total colapso, de todo e qualquer chão ou tecto que ainda sobejassem neste edifício (em escombros).11 Após esta dissolução, a luz penetra e reverbera agora intensamente, revelando-se entretanto, pelo menos à superfície, mais propensa a circular onde não mais poderá perdurar a treva… Isto não fosse a própria luz, sobretudo quando em demasia, um magnânimo indutor de cegueira.


Voltemos o discurso ao diálogo (com outras obras). A elocução pós-minimalista abre também ela espaço a discursos subversivos ou com elevada carga de ironia, como aquele contemplado por Bruce Nauman em Wax impressions of the knees of five famous artists (1966), obra onde o artista se apodera da noção indexical, requisito amplamente devedor das então muito ensaiadas práticas ritualísticas do corpo—e de uma certa espiritualidade—na arte,12 ao aplicar a sua leitura a pressupostos alegadamente desvirtuados; o processo de manipulação vai desde a cera que figura no título e que na verdade é um composto de fibra de vidro e resina de poliéster, até e na mesma medida em que os também enunciados cinco artistas corresponderão apenas ao próprio Nauman; aqui, a crença do espectador surge depositada num heterotopos em consequência do deslocamento referencial introduzido pelo artista e que permitirá por sua vez aferir—e simultaneamente esticar, explorando equitativamente uma dinâmica que compreende potencialidades e fragilidades—do verdadeiro potencial significante na aplicação do conceito de índice a um medium artístico (no presente caso da escultura).

Já no ano que antecede a execução da obra aqui mencionada havia Bruce Nauman materializado a sua dedicação ao estudo destas questões, que se relacionam com a marca deixada por meio do índice—e das relações de contiguidade parturientes do vestígio que dali resulta—no universo da representação. Em A cast of the space under my chair (1965-1968), exibe-se novamente uma escultura onde voltamos a verificar um encontro com o sistema de reprodução indexical, que assim anuncia metonimicamente a presença de algo que em tempos foi contíguo mas que entretanto deixou de o ser, e daí o registo que anuncia (e denuncia) a sua efectiva presença—no caso, e como de resto o título da obra indica numa solução que volta a ser um recurso, regista-se uma positivação do espaço não preenchido pelo vazio situado debaixo de uma cadeira.13

De acordo com Rosalind Krauss, o localizado gesto de Nauman investe-se de “algo que está para além do compulsivo desejo de anti-forma”; este aparece enquanto “arma de arremesso apontada à entropia” dado o nível de ambiguidade inscrito e apresentado pelo molde final, que comporta uma fatia de espaço intersticial, morto, enfim inobjectável (aos nossos olhos) sem o directo auxílio de um título que nos volta a ancorar e retoma ou reactiva o respectivo acto de significação, devolvendo-lhe a—ou alguma da—objectualidade entretanto deslocada através do processo.14 Será novamente perante a presença deste elemento aglutinador que a crença do espectador é reactivada, organizando-se as então esparsas formas de conteúdo em (nova) matéria significante.


Como conceber, por exemplo, o episódio em volta do qual Joseph Beuys constrói a mítica figura do artista—personificação que posteriormente enverga nas suas múltiplas acções, estendendo inclusivamente o seu alcance ao âmbito pedagógico—em redor do alegado salvamento levado a cabo por nómadas tártaros (tribo oriunda do território da Crimeia) quando o seu avião da Luftwaffe, depois de abatido, se despenhou (II Guerra Mundial)? Segundo o próprio, o seu corpo fora então tratado e recuperado dos traumas do aludido acidente através da aplicação directa de gordura animal, entretanto adicionando-se ao processo o uso do feltro como elemento-chave na ligação entre substância e o próprio corpo de Beuys; voltará a não ser um acaso quando este processo sistematicamente se integra e se faz acompanhar destes dois materiais ao longo da œuvre do artista…

Nomeamos uma ocasião em que a desmaterialização da obra obedece a uma lógica eminente de desocultação. Em Kassel, na Documenta 5 (1972), Joseph Beuys abre o seu (polémico) escritório para a democracia directa, local onde durante os 100 dias do evento o artista apresentou uma instalação viva (e em permanente transformação) totalmente assente em pressupostos de colaboração entre o público visitante e o próprio Beuys. Dali resultaram os diários que Beuys e Dirk Schwarze produziram durante o(s) encontro(s), registo que compreende o universo de actividades postas em prática—ou não, dado o desconforto de muitos dos visitantes, que, e segundo algumas descrições, entravam para imediatamente voltarem a sair, não gerando desta forma o desejado feedback junto do artista.

Esta (não) recepção—que se caracteriza pela falha ou quebra de continuidade, curto-circuitando a experiência em jogo—por parte do público encerra outro pólo de um debate que circula em torno da resistência oferecida a este género de discurso ou projecto artístico. Beuys procura recuperar um espaço de partilha, desde logo aberto, onde criação e discussão pública convergem enquanto acções intercomunicantes que assim convocam o acto colaborativo produzido em comunhão. Construindo uma abordagem directa—e em directo—, e aproximada ou contígua ao real, reafirma-se, portanto, o (contemporâneo) social.


Dentro dos factores contributivos para tal, e que se desenvolvem a partir de molduras de carácter institucional—muitas das vezes diluindo o poder de ordem vigente—, destacam-se o crescente registo expositivo da bienal, momento que transporta consigo o crescimento de uma nova lógica de institucionalismo onde se inscrevem, por exemplo, as figuras do autor-curador, relevando este maior ou menor densidade auto-reflexiva ao longo do seu respectivo discurso (artístico e/ou expositivo). As feiras de arte público-privadas, e ainda a encomenda de projectos de arte pública enquadrados no domínio de uma esfera social específica, alinham-se também por uma idêntica lógica operacional, perfilando-se-lhe enquanto aditamentos.15

Como tal, estas propostas de arte colaborativa colocam em causa a noção de uma arte pública que privilegie uma qualquer imposição (e ocupação) física (formal/morfológica) e fenomenológica do espaço (perante o sujeito); deste modo projecta-se a substituição de uma materialidade objectual pelo acto ou gesto imaterialmente significantes—projectos (temporários, efémeros) dirigidos a um ou mais públicos específicos, comprometendo-se o primeiro a despertar a adesão participativa do segundo. Todos estes se classificam como programas orientados pelo processo, e que por sua vez se legitimam enquanto práticas no campo expandido, sempre tido como politicamente consciente e socialmente activo, e que compreende a troca intersubjectiva como médium artístico—socially engaged art, community based art, experimental communities, dialogic art, littoral art, participatory art, research-based art, interventionist art, collaborative art.


  1. Giorgio Agamben, Nudez (Lisboa: Relógio d’Água, 2010) 

  2. Foi este o caminho perscrutado pela corrente situacionista, pretendendo auscultar incisiva e demoradamente a voz daqueles que não mais permanecem estranhos ao universo interno da própria obra; os primeiros tomam assim parte activa do processo de construção desta última. 

  3. Este instante que nos pede qualquer obra de arte, seguindo uma ideia de Boris Groys, oferece-se ao sujeito como demanda progressivamente estendida no tempo, designadamente por via da utilização de novos suportes e/ou dispositivos técnicos, como verificado no uso do vídeo em contexto expositivo. Este, médium portador de um determinado tempo, tempo que lhe é próprio e que o mesmo, portanto, ontologicamente declara e exibe, exige também a tomada do nosso tempo enquanto espectadores, veiculando assim a necessidade de (mais ou menos) prolongados tempos de exposição do sujeito perante a obra para uma leitura (mais) completa, ou melhor, para uma (sempre mais) completa possibilidade de leitura. 

  4. Ai Weiwei: Ways Beyond Art, ed. lit. E.O. Foster e H.U. Obrist (London & Madrid: Ivorypress, 2009), p. 20 (tradução da responsabilidade do autor) 

  5. Como propõe Claire Bishop, os registos de participação do espectador, que por sua vez se encontra contemplado enquanto elemento endógeno à própria obra, repetem-se após a década de 60 do século XX por via de desenvolvimentos vários que vão desde a inclusão do próprio processo—que em parte resulta da des-hierarquizaçao dos suportes e técnicas—até ao sempre galopante desenvolvimento tecnológico, acentuando-se aqui processos de interactividade entre os pólos de produção e recepção. O estreitamento desta dialéctica constrói-se a dado momento por via da designada “estética relacional” de Bourriaud, conceito que prevê o agenciamento físico de ambos os sujeitos (produção e recepção) numa prática colaborativa comum ou intercomunicante, activando a supressão do espaço transitivo que os apartara ainda amiúde em propostas de interactividade anteriores. Cf. Claire Bishop, ed. lit., Participation (London: Whitechapel & Cambridge, Mass.: The MIT Press, 2006) 

  6. Veja-se vimeo.com/68202707 

  7. Cf. Claire Bishop, “The social turn: Collaboration and its discontents”, in Rediscovering aesthetics: Transdisciplinary voices from art history, philosophy, and art practice (Stanford: Stanford University Press, 2009), p. 248 

  8. A fotografia surge aqui antes de tudo como evidência material de algo efémero, transitório, como registo ou atestado de prova de determinada acção, estendendo-se esta lógica operacional (do documento que encerra um testemunho) ao suporte vídeo, que assim será a sua natural progressão enquanto registo de uma acção desmultiplicada no tempo e no espaço. Este aspecto denuncia, e enuncia, um valor cumulativo que culminará por sua vez no desejo de constituição de um arquivo permanente revelado pelo artista. Veja-se nota 3. 

  9. Formulação pedida de empréstimo ao legado de Walter Benjamin. 

  10. Catherine Grenier, Big Bang: Destruction et création dans l’art du XXe siècle (Paris: Centre Georges Pompidou, 2005) 

  11. A derivação baseia-se na tradução para inglês do original Le Musée Imaginaire (André Malraux, 1947), título que então se converte no aludido Museum Without Walls

  12. Exercício então amplamente difundido e levado a cabo por práticas ligadas à Body Art e ao próprio Nouveau Réalisme, nomeadamente através das famosíssimas Anthropométries de Yves Klein (1960). 

  13. Esta técnica de positivação de espaços intersticiais aplicada à especificidade do medium escultórico será ainda longamente estudada e desenvolvida na praxis da artista britânica Rachel Whiteread. 

  14. Rosalind Krauss, “X marks the spot”, in Y.-Al. Bois e R. Krauss, Formless: A user’s guide (New York: Zone Books, 1997), p. 214-219 

  15. Cf. Claire Bishop, “The social turn: Collaboration and its discontents”, p. 238 


Sobre Hugo Barata

Hugo S. Barata é licenciado em História da Arte. Nas horas livres (penteia-se com artesania) livra-se de ter horas livres. Em todas as demais vive. E perde-se, sobretudo na procura de perguntas e, como tal, raramente se encontra (face-a-face) perante respostas. Afinal… até ao final.


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Hugo Barata, “Episódios de vida na Arte Contemporânea, Episódios de arte na vida contemporânea”, em Paraquedas 2 (2014). Disponível em: www.revista-paraquedas.net/a-arte-de-viver/episodios-de-vida-na-arte-contemporanea/ (acesso em 25/05/2017)