G.

— Albert Alexandre +

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A verdadeira arte é perigosa.

A arte autêntica é uma actividade hostil em que a saúde se escapa mansamente.

Estas foram as primeiras lições que extraí do dia em que segui, vivi e bebi com um artista: o escultor G.

Há os bailarinos que acabam a sua carreira com os tornozelos feitos em bola número três do bilhar. Os escritores, se não acabam cegos, chegam ao fim com as costas mesmo ao ponto para qualquer reumatólogo. Os cantores cuidam da sua voz até limites insuspeitados e loucos. Diz-se mesmo que alguns violinistas, nos últimos compassos da sua existência, vivem sob a tirania do torcicolo permanente; giram inconscientemente a cabeça como se fossem decapitados a quem ficou um fio de pescoço por cortar.


A dos corpos não é a única destruição paredes meias à arte. O artista sem fissuras, o artista puro, enfrenta-se a outra dor bem mais premente e contemporânea: o risco de não conseguir o mínimo suficiente para passar o mês sem derrotas, para nem falar em glórias. Pois bem, isto é pano para outras mangas… mesmo se, pensando bem, a pobreza é o estado anterior à enfermidade: a proto-enfermidade.


O escultor G. e eu combinámos encontrar-nos sexta-feira cedo, no bairro barcelonês de Sants. As nove de manhã era uma hora significativa que deitava por terra qualquer mito sobre a rotina tresloucada e boémia que se supõe ser a dos artistas.

Afinal, fui eu quem não cumpriu o combinado e apareci horas mais tarde no atelier de G. Talvez para imitar o que pensava dos artistas, decidi alargar a noite anterior no centro da cidade e de manhã foi-me impossível sair dos lençóis antes das onze. Em tentativa de redenção telefonei a G. para pedir desculpas pela impontualidade e para perguntar-lhe se era necessário levar algum tipo de presente ilibatório:

— Olhe, queres que te leve algo de comer… Talvez umas latas de cerveja?

O escultor G. respondeu negativamente e pude confirmar de novo que a rotina dos artistas está muito longe do absinto e do ópio; nem chega à cerveja matinal. Um tanto ou quanto fantasista imaginava como iria correr o dia ao lado de G.; tinha a vaga esperança de que no seu atelier haveriam homens e mulheres despidos esparramados sobre grandes almofadas; haxixe e ópio correndo pelos pulmões dos presentes; Velvet Underground ou uma cítara índia aos berros; pequenos carnavais no tempo retardado a que nos enviam as substâncias alucinogénicas…


G. recebeu-me gentilmente no seu atelier vestido de um avental desmazelado cheio de pintura seca e uma máscara para evitar a inalação de gases tóxicos. Parecia arrancado de um futuro apocalíptico em que os carniceiros têm que proteger-se para cortar a carne geneticamente modificada. Ali não havia nada do que sonhei, e devo reconhecer que não sei até que ponto me teria sentido cómodo na mítica estampa saída do século XIX parisiense. No atelier do escultor G. só havia o trabalho, uma desordem febril e o rádio sintonizada numa cadeia de música pseudo-alternativa.


A verdadeira arte é fisicamente destrutiva, isso já disse. No entanto, o mais manhoso disto é que a arte autêntica pode chegar a devastar não só o artista que a produz, mas também os que o rodeiam. Quantos casais desgastados pela literatura? Quanta capacidade auditiva perderam pais e mães de trompetistas? A arte tem o efeito de uma granada de mão: arrasa o epicentro da explosão e produz uma onda expansiva mortífera. Quanta mais intensa a arte, mais destrutor o seu raio de acção.

No atelier do escultor G. o cheiro químico entorpecia o meu cérebro e o cordial artista me emprestou uma máscara para me proteger do efeito nocivo dos gases tóxicos que se desprendiam dos materiais com que trabalhava. A ameaça tinha dois nomes: Poliéster e Pó de ferro. Apesar de que a sua inalação esporádica não produz mais que uma leve tontura, a exposição continuada a estas substâncias pode originar doenças pulmonares e siderose.1

Albert Martim Mestre, 2014

Estávamos nós, o artista G. e este humilde narrador, com as belas máscaras antiandrax a adornar as nossas cabeças; ainda não começou o dia-a-dia de um artista, pois o escultor G. trabalha de manhã como ajudante do conhecido escultor barcelonês S.

Tal como nas velhas relações laborais da Idade Média, G. ganha o seu pão como ajudante de S. Realiza aquelas tarefas mais anódinas, desprendidas do exercício escultórico, e aprende esforçadamente as técnicas mais secretas da arte.

Quando nos encontramos no atelier onde G. trabalha (atelier que S. aluga sem auferir lucros a uma dezena de artistas de distintas disciplinas), o escultor que eu devia seguir durante um dia inteiro estava a encher uns moldes de silicone com uma repugnante mistura. Uma vez engrossado e seco, este líquido acinzentado transformar-se-ia numa obra de arte. À maneira dos Pink Floyd podíamos dizer que essa era o rosto obscuro não da lua, mas da escultura. Os submundos citadinos ou os bairros periféricos da arte encontram-se numa substância escura e altamente tóxica.

Albert Martim Mestre, 2014

Aí pelas doze fomos ao atelier do escultor S., a poucas ruas do atelier de G. Neste lugar, como se fosse na dinâmica marxista das classes, encontrei, seguramente pelo seu asseio, os estratos médios da escultura. Ali estavam as obras ainda só como ideias ou já nas últimas fases criativas. As classes altas, a burguesia da escultura, encontraria, suponho, nas casas dos ricos ou nas desapiedadas galerias do centro da Barcelona e do bairro de Gràcia.

Cumprimentámos S. e logo voltámos ao escuro atelier de que começava a gostar cada vez mais. Entre o pó, as emanações gasosas e a desordem, começava a sentir uma certa perfeição caseira, uma unidade que gritava arte. “É preciso trazer de dentro um caos para poder gerar uma estrela dançante.” Friedrich, como tinhas razão!


Chegou a hora do almoço. O que comem os artistas? Comem de todo, ou perdidos na sua criatividade se esqueçam de realizar esta necessidade básica? Fomos à casa de uns amigos portugueses de G. (que também é português) que também são amigos meus. O casal luso (Ge. e X.) vive numa agradável casa do bairro de Sants, que tem um minúsculo pátio que logo invejei. Chamei a minha namorada (I.), que em exibições de liberalismos chamo chuchuzinho, amor ou até companheira nos meus dias mais revolucionários. No almoço estávamos G., Ge., X., I. e eu, e também uma rapariga de Valencia que nasceu em Cuba.

Comecei a entender que a vida de um artista era muito parecida à minha, e isto, que num primeiro momento me parecia intolerável, passado um tempo começou a agradar-me. A mesma comida, as mesmas conversas, as mesmas preocupações, os mesmos risos pelas mesmas piadas, o mesmo silêncio de aborrecimento… E se a vida de artista não existe além da acção artística?


Depois do agradável almoço voltámos ao atelier e G. podia finalmente trabalhar na sua própria escultura. E aí houve outra desilusão. Não havia blocos de mármore nem cinzeis, não havia bronze. Imediatamente me senti desapontado e completamente enganado pelas lições clássicas dos mestres-escultores. Que palhaço o Miguelângelo ao afirmar que cada bloco de pedra esconde uma figura no seu interior e que a obra do escultor é descobri-la!

Albert Martim Mestre, 2014

G. ligou a sua rebarbadora à corrente e, como se fosse um cirurgião de monstruosos animais, se lançou com força contra a sua escultura. Passou horas com a ferramenta eléctrica polindo-a; horas de faíscas e ruído infernal… a arte – fruste desengano – era isto, ao fim e ao cabo.


Precisamente quando pensava que o último mito sobre os artistas cairia também por terra, ouvi a voz de G. chamando por mim na sala de partos.

— Vem cá um segundo, preciso de pôr a escultura de pé.

Albert Martim Mestre, 2014

Eu estava a ler e deixei a tarefa mal-humorado. Esforçadamente endireitámos o enredo de pó de ferro, e então tudo mudou. G. começou uma subtil dança à volta da sua escultura: observava-a de trás, se aproximava, olhava-a na cara, tocava-a… tudo isto num silêncio sepulcral que se enchia de palavras. Parecia que G. e a sua obra dialogavam buscando pontos em comum. Ela queria ser algo mas G. resistia a que o fosse. G. considerava outra opção mas a estátua colocava a impossibilidade de tal deriva.


Um pouco depois a escultura voltou à sua caída posição original e de novo a trovejante rebarbadora e as faíscas inundavam o atelier.

Apareceu um companheiro de atelier que tinha que construir um costume de metal para um amigo seu. Este amigo viria mais tarde e pude escutar como se interpelavam carinhosamente de “puta”, “cadela”, “divina” ou “louca”. Como soube mais tarde, o costume dourado de gladiador seria usado numa manifestação queer pelo amigo efeminado.


Acabou o dia de G. como escultor e fomos à tasca onde sempre vamos às sextas pela tarde. Acabas por ganhar gosto em que o barman te põe o que queres somente por entrares pela porta. É verdade que as opções são poucas e o proprietário do bar, J., tem poucas probabilidades de falhar: cerveja negra, cerveja loira ou mistura das duas.

No bar vinham se juntando amigos meus e de G. que no fim formavam um grupo ecléctico em que estavam representadas numerosas nacionalidades e carácteres divergentes. Bebi uma cerveja, depois outra, depois uma terceira e comecei a recuperar desta leve doença matinal produzida pelo poliéster e o pó de ferro. Já estávamos prontos para viver a noite e em rebanho fomos para outro bairro, como se fosse outra cidade, para dançar um pouco. O que se passou então é por demais conhecido por todo o mundo e não tem substância literária nenhuma.


Durante as semanas seguintes tenho andado a reflexionar sobre o dia que passei com G. Será a minha existência diferente da do artista? Tenho que reconhecer que são bastante parecidas: os mesmos bares, amigos em comum, uma mesma forma de entender a noite… no entanto, há algo, um só instante, que nos distancia. É a dança de G. em volta da sua escultura, é o silêncio dialogante entre ele e a sua arte. A diferença é este instante, este momento em que a vida do artista se afasta a milhões de anos-luz da do resto dos mortais…e isto muda tudo.


  1. Para aqueles a quem isto parece uma piada – quero dizer, o risco que a arte implica – falarei brevemente da siderose. A dita palavra, de maléfica ressonância, define uma doença pulmonar do grupo das pneumoconioses. Este grupo de enfermidades pulmonares costuma afectar os mineiros e consiste numa quantidade anormal de partículas minerais orgânicas nos brônquios, nos linfonodos ou na parênquima pulmonar. Tudo isto pode produzir irritação das vias aéreas. 

El arte verdadero es peligroso.

El arte auténtico es una actividad hostil en la que la salud se escapa mansamente.

Estas fueron las primeras enseñanzas que extraje del día que seguí, viví y bebí con un artista: el escultor G..

Están los bailarines que concluyen su carrera con los tobillos como la bola número tres del billar. Los escritores si no acaban ciegos, terminan con la espalda a punto de caramelo para cualquier reumatólogo. Los cantantes cuidan su voz hasta límites insospechados y locos. Se comenta incluso, que algunos violinistas, en los postreros compases de su existencia, viven bajo la tiranía de la tortícolis permanente; ladean inconscientemente la cabeza cual si fueran decapitados a los que ha quedado un hilo de cuello por cortar.


La de los cuerpos no es la única destrucción pareja al arte. El artista sin fisuras, el artista puro, se enfrenta a otro dolor mucho más acuciante y contemporáneo: el riesgo a no alcanzar el mínimo suficiente para pasar el mes sin pena y menos con gloria. Pero bien, eso es arena de otro costal… aunque pensándolo bien, la pobreza es el estado anterior a la enfermedad: la protoenfermedad.


El escultor G. y yo habíamos quedado en encontrarnos el viernes temprano, en el barrio barcelonés de Sants. Las nueve era una hora significativa que tiraba por tierra cualquier mito acerca de la rutina alocada y bohemia que se presupone a los artistas.

A la postre fui yo quien no pudo acatar lo acordado y me presenté dos horas más tarde en el taller de G.. Quizás por emular lo que pensaba de los artistas decidí alargar la noche anterior en el centro de la ciudad y por la mañana me fue imposible desprenderme de las sabanas antes de las once. Haciendo acopio de redención, llamé a G. para disculparme por la impuntualidad y para comentarle si era necesario que llevara algún tipo de presente exculpatorio:

— Perdóname, quieres que te traiga algo de comer… ¿tal vez unas latas de cerveza?

El escultor G. respondió negativamente y corroboré de nuevo que la rutina de los artistas está muy alejada de la absenta y el opio, no llega ni a la cerveza matinal. De algún modo fantasioso, mientras imaginaba cómo transcurría ese día al lado de G., tenía la vaga esperanza de que en su taller hubiese mujeres y hombres desnudos despojados en grandes cojines; hachís y opio recorriendo los pulmones de los presentes; Velvet Underground o una citara india sonando a todo volumen; pequeños carnavales en el tiempo ralentizado al que nos envían las substancias lisérgicas…


G. me recibió amablemente en su taller portando un delantal ajado lleno de pintura seca y una máscara para evitar la inhalación de gases tóxicos. Parecía sacado de un futuro apocalíptico en el que los carniceros deberán protegerse para cortar carne modificada genéticamente. Allí no había nada de lo soñado y debo reconocer que no sé hasta qué punto me hubiese sentido cómodo en la estampa mítica sacada del siglo XIX parisino. En el taller del escultor G., solamente estaban el trabajo, el desorden febril y la radio sintonizada en una cadena de música pseudoalternativa.


El arte verdadero es físicamente destructor, eso ya lo he dicho. Sin embargo lo más peliagudo del tema es que el arte auténtico puede llegar a devastar, no sólo al artista que lo produce, sino a los que le rodean. ¿Cuántas parejas habrá ajado la literatura? ¿Cuánta capacidad auditiva habrán perdido los padres y madres de un trompetista? El arte tiene el efecto de una granada de mano: arrasa el epicentro de la explosión y produce una onda expansiva mortífera. Como más intenso es el arte más destructor es su radio de acción.

En el taller del escultor G. el olor químico enturbiaba mi cerebro y el cordial artista me prestó una máscara para protegerme del efecto nocivo de los gases tóxicos, desprendidos de los materiales con los que trabajaba. La amenaza tenía dos nombres: Poliéster y Polvo de hierro. Pese a que su inhalación esporádica sólo llega a producir un leve mareo, la exposición continuada a esas substancias puede causar afecciones pulmonares y siderosis.1

Estábamos el artista G. y un servidor, con las bellas máscaras antiandrax adornando nuestras cabezas; aún no empezaba el día a día de un artista pues el escultor G. por las mañanas trabaja como ayudante del reconocido escultor barcelonés S..

Cual en las viejas relaciones laborales de la Edad Media, G. se gana el pan como ayudante de S.. Realiza aquellas prácticas más anodinas desprendidas del ejercicio escultórico y aprende a marchas forzadas las técnicas más secretas del arte.

Cuando nos encontramos en el taller donde trabaja G. (taller que S. alquila sin obtener beneficios a una decena de artistas de distintas disciplinas), el escultor que yo debía seguir durante un día entero, estaba rellenando unos moldes de silicona con un mejunje asqueroso. Una vez compactado y seco, ese líquido grisáceo se convertiría en una obra de arte. Emulando a Pink Floyd, podemos decir que eso era la cara oscura, no de la luna, sino de la escultura. Los bajos fondos ciudadanos o los barrios marginales del arte estaban en una substancia oscura y altamente tóxica.

Albert Martim Mestre, 2014

A eso de las doce fuimos al taller que posee el escultor S. a pocas calles de distancia del taller de G. y en ese lugar, como en la dinámica de clases marxista, encontré, seguramente por su pulcritud, los estratos medios de la escultura. Allí estaban las obras tan sólo como ideas o en las últimas fases de su creación. Las clases altas, la burguesía de la escultura, se encontrarán, supongo, en las casas de los ricos o en las impías galerías del centro de Barcelona y el (del?) barrio de Gràcia.

Saludamos a S. y luego volvimos al taller oscuro que cada vez me agradaba más. Entre el polvo, las emanaciones gaseosas y el desorden, empezaba a sentir una perfección hogareña, una unidad que gritaba arte. “Es necesario llevar un caos, para poner en el mundo una estrella danzante” ¡Oh sí Friedrich cuánta razón tenías!


Había llegado la hora de comer. ¿Qué comerán los artistas? ¿Comen o ahogados en su creatividad se olvidan de llevar a cabo esa necesidad básica? Fuimos a casa de unos amigos portugueses de G. (también portugués) que son a la vez amigos míos. La pareja lusa (Ge. y X.) vive en una casa del barrio de Sants con mucho encanto y que posee un exiguo patio que al instante envidié. Llamé a mi novia (I.) a la que en un alarde de progresía llamo xurri, pareja o incluso compañera en mis días más revolucionarios. En la comida estábamos G., Ge., X., I, y yo y también una chica de Valencia que había nacido en Cuba.

Comenzaba a entender que la vida de un artista se parece mucho a la mía y eso que en un primer momento me parecía intolerable, al rato empezó a gustarme. Las mismas comidas, las mismas conversaciones, las mismas preocupaciones, las misas risas a las mismas bromas, el mismo silencio de aburrimiento… ¿Y si la vida de artista no existe más allá de la acción artística?


Tras la amena comida volvimos al taller y G. pudo por fin, trabajar en su escultura. Otro desengaño ocurrió entonces. No había bloques de mármol ni cinceles, no había bronce. Me sentí decepcionado al instante y absolutamente estafado por las enseñanzas clásicas de los maestros escultores. ¡Qué farsante Miguel Ángel cuando afirmaba que cada bloque de piedra esconde una figura en su interior y la labor de cada escultor es descubrirla!

Albert Martim Mestre, 2014

G. enchufó su cierra de disco a la corriente y como si fuera un cirujano de animales monstruosos arremetió con fuerza contra su escultura. Pasó horas con la herramienta eléctrica puliendo su escultura; tiempos de chispas y ruido infernal… eso al fin era el arte, menuda decepción.


Justo cuando pensaba que el último mito de los artistas caería también, oí la voz de G. reclamándome en la sala de partos.

— Ven un segundo, necesito poner la escultura en pie.

Albert Martim Mestre, 2014

Estaba leyendo y abandoné la tarea malhumorado. Con esfuerzo enderezamos el amasijo de polvo de hierro y entonces todo cambió. G. inició una sutil danza alrededor de su escultura: la observaba por detrás, se acercaba a ella, la miraba cara a cara, la tocaba… todo esto en un silencio sepulcral lleno de palabras. Parecía como si G. y su obra dialogaran buscando puntos en común. Ella quería ser algo pero G. se resistía a que lo fuera. G. consideraba otra opción pero la estatua planteaba la imposibilidad de esa deriva.


Al rato la escultura volvía a su tumbada posición original y de nuevo la atronadora radial de disco y las chispas inundaban el taller.

Apreció por allí un compañero de taller de G. que tenía que construir un traje de metal para un amigo suyo. El amigo en cuestión vino más tarde y pude escuchar como el uno al otro se interpelaban cariñosamente como “puta”, “zorra”, “divina” o “loca”. Según supe más tarde ese traje dorado de gladiador sería usado en una movida queer por el amigo afeminado.


Había acabado la jornada de G. como escultor y nos fuimos a la bodega a la que siempre vamos los viernes por la tarde. Uno acaba cogiéndole el gusto a que el barman le ponga lo que quiere sin haberlo pedido con tan solo entrar por la puerta. Cierto es que las opciones son pocas y el propietario del bar, J., tiene escasas probabilidades de fallar: cerveza negra, cerveza rubia o mezcla de las dos.

Al bar fueron acudiendo amigos de G. y míos que al fin formaron un grupo ecléctico en el que estaban representadas numerosos nacionalidades y divergentes caracteres. Bebí una cerveza, luego otra, luego una tercera y empecé a recuperar ese leve mareo mañanero producido por el poliéster y el polvo de hierro. Ya estábamos listos para vivir la noche y en manada nos fuimos hacia otro barrio, como si fuera otra ciudad, para bailar un poco. Lo que sucedió entonces es harto conocido por todo el mundo y no tiene sustancia literaria alguna.


Durante las semanas posteriores he estado reflexionando acerca del día transcurrido con G. ¿Es mi existencia distinta a la del artista? Debo reconocer que se parecen bastante: los mismos bares, conocidos compartidos, similar forma de entender la noche… sin embargo hay algo que nos distancia, un sólo instante. Es la danza de G. alrededor de su escultura, es el silencio dialogante entre él y su arte. La diferencia es ese instante, ese momento en el que la vida del artista se aleja a millones de años luz de la del resto de mortales… eso, lo cambia todo.


  1. Para los que se toman a broma esta idea, es decir el riesgo que conlleva el arte, seguidamente hablaré brevemente de la siderosis. Dicha palabra de resonancia maléfica define una enfermedad pulmonar del grupo de las neumoconiosis. Este grupo de dolencias pulmonares suelen afectar a los mineros y consisten en una disposición anormal de partículas minerales orgánicas en los bronquios, los ganglios linfáticos o la parénquima pulmonar. Todo esto puede producir irritación de las vías aéreas. 


Sobre Albert Alexandre

Albert Alexandre é escritor. Vive e nasceu em Barcelona, e recentemente decidiu gastar as suas poupanças escrevendo a sua primeira novela. É licenciado em História pela Universidad Autónoma de Barcelona e cursou dois mestrados na Universidad Pompeu Fabra, o primeiro de escrita criativa e o segundo de literature, arte e pensamento, com uma tese sobre literatura anarquista em Espanha entre os anos 1921 e 1936.


Citar

Albert Alexandre, “G.”, em Paraquedas 2 (2014). Disponível em: www.revista-paraquedas.net/a-arte-de-viver/g/ (acesso em 25/05/2017)