Foram cerca de 9 meses a viver na Cova do Vapor – uma pequena povoação na margem sul do Tejo, onde o rio abraça o mar.
O maior desafio quando começámos a construir a Casa do Vapor, era torná-la numa Casa. Construir, sabíamos que íamos conseguir. Mas como torná-la agradável, desejada, confortável?
Moradores da Cova e voluntários de outros cantos do mundo juntaram-se na sua construção. Quase uma centena de voluntários veio até à Cova. Uns vinham de Lisboa, outros do Porto, de França, Alemanha, Itália… Uns vieram na sua auto-caravana, outros de comboio, à boleia ou de bicicleta. Chegavam geralmente cansados. Quem os recebia, muitas vezes, eram as crianças ou a Fernanda, a nossa cozinheira.
A Casa ficava na praia e tornou-se no novo espaço público da Cova. Todos eram convidados a cozinhar, a pensar em atividades e em fazê-las acontecer. Reuníamo-nos à mesa divertidos, a pensar em grandes ou pequenos projetos artísticos.
O que significou viver nesta Casa?
Pedimos aos moradores da Cova e a artistas que na Casa residiram para nos responder a esta pergunta. E que partilhassem as suas lembranças através dos seus sentidos.
A Casa do Vapor foi um projeto de arquitetura efémera iniciado pelo coletivo de arquitetura Exyzt. Entre Abril 2013 e Outubro 2013 foi ativada como residência artística e incubadora de projetos, cozinha comunitária e espaço público de lazer. A Biblioteca do Vapor é o seu legado permanente e pode ser visitada na localidade da Cova do Vapor, Trafaria, Almada.
www.casadovapor.org | www.exyzt.org | www.bibliotecadovapor.org
Na Cova do Vapor cheirámos … os carapaus a grelhar no churrasco. Lembramo-nos da noite em que foi organizada a “festa dos pescadores” na praia. Era o início do verão e as pessoas estavam um pouco tímidas. Surpreendentemente, nessa noite vieram, e pudemos partilhar este momento com as crianças e os velhos. Bebemos vinho e depois dançámos.
Vimos … o pôr-de-sol no mar sobre o paredão onde costumávamos pescar com as pessoas do sítio. Sentimos o poder da natureza quando pendurámos a nossa primeira bandeira em cima do tecto. O vento era tão forte!
Escutámos … a Cova também traz à memória o som de um curioso instrumento de garrafas de vidro, uma espécie de órgão artesanal. Duas pessoas podiam tocá-lo com baquetas de madeira e aço. Ninguém sabia realmente tocar bem mas todos os visitantes faziam soar o instrumento com um som que rapidamente se tornou familiar.
Dissemos … muitas coisas, sobre a vida, projectos, e investimento em arte social … misturando o francês, o inglês, o alemão e o português. Também dissemos muitas coisas em linguagens não-orais, com as mãos, os olhos, os risos.
Cécile, Mathilde, Gabriel e Julien. Les Commissaires Anonymes (França). Dez dias na Cova do Vapor foram o suficiente para sentir que a energia colectiva pode transformar precariedade em riqueza. O grande “capital imaterial” da Casa do Vapor era a particular confluência de sonhos e capacidades. A imaginação e o voluntarismo de todos os actores do projecto constituía um recurso insaciável: cada dia fazia nascer novos compromissos com a comunidade. Lembramo-lo hoje, no nosso dia-a-dia, mais individual e confortável.
Lembro-me … do cheiro peculiar da chuva caindo na areia e misturando-se com o da madeira. Sinto mesmo falta do cheiro de peixe grelhado. Vi … a chuva e uma grande tempestade enquanto nadava no mar. A alegria dos miúdos e os seus risos, o seu calor e motivação a ajudar-nos. Vi velhos amigos reunidos e novos amigos feitos, todos juntos a trabalhar com o mesmo fim. Escutei … as pessoas da Cova, as suas hesitações e dúvidas, as suas histórias. As piadas e o bom ambiente no restaurante Chaves d'Ouro.
Disse … às vezes tudo, às vezes nada. Disse que estava lá para lhes dar as minhas capacidades para ajudar no que podia. E se não o disse o suficiente ou a todos: foi mesmo um prazer conhecer-vos a todos!
Não cheirei … o cheiro de gasolina e poluição comuns nas cidades. Isto foi óptimo! Não vi … nenhuma noite de karaoke como a da Associação dos Moradores e da Trafaria! Esse foi um daqueles momentos que todos sentimos!
Não toquei … numa surfboard! O quanto agora me arrependo …
Não provei … o famoso bolo de bolacha das pessoas da Cova!!! Grande falhanço.
Patrícia Gomes, arquiteta (Braga). Trabalhei pela primeira vez com estas madeiras e com os EXYZT em Guimarães, no projeto "Construir Junto", na Fábrica ASA. Em conjunto com os meus colegas do PROSAICO coletivo viemos até à Cova do Vapor por duas vezes. Uma para dar um uso importante ao mesmo material, na construção da Casa do Vapor, e outra para dar uma nova função às madeiras, melhorando e revigorando os espaços públicos da Cova que precisavam de ser intervencionados.
Eu vi – e foi o melhor que me aconteceu durante todo o mês – os olhos a brilhar dos miúdos na primeira noite de cinema. Provei – e convenceu-me – frutas e vegetais que eram um pouco feias mas mesmo assim sabiam como novas. Escutei – e nunca me cansei – o Nuno a cantar a mesma canção todas as sextas-feiras.
Não cheirei – e não me apercebi até voltar a casa – o cheiro de peixe grelhado em toda a minha roupa. Não provei – e tive que mentir sobre a minha proeza – um peixe que eu próprio apanhei. Não escutei – e estava feliz assim – notícias do resto do mundo. Não disse – e queria que o tivesse feito! – o suficiente em Português ...
Suzanne Labourie, 23 anos, estudante francesa em Berlim. Prefiro desenhar e pintar a tirar fotografias. Aprendi a usar uma chave de fendas no início do projecto e descobri toda uma problematização de planeamento urbano, barreiras culturais, arte e participação civil do contacto com as pessoas da Cova e os residentes da Casa. Fiz o jogo de xadrez e organizei as sessões de cinema em Julho.
Eu cheirei o perfume das fantásticas pessoas que conheci… Eu ouvi a voz dos escritores que adorei conhecer… Eu senti que estas pessoas são muito especiais para mim… Eu vi que as pessoas que fizeram o projeto tinham vontade de trabalhar connosco… Eu não cheirei o fumo do nosso forno… Eu não ouvi dizerem que o projeto não valia a pena… Eu não senti mau ambiente…
Nuno, morador da Cova do Vapor (13 anos) apeixonado por receber os artistas que vieram até à Cova e ajudar a Casa em todos os eventos…
Vi muitas sardinhas grelhadas. Vi muitas pessoas de muitos países. Só vi um polícia em três meses. Não vi nenhum mau carapau. Vi crianças a correr no telhado da cozinha. Vi pela primeira vez uma mini-cerveja. Vi amor.
Nunca vi uma bicicleta com um cadeado seguro. Nunca vi a chave da cozinha no sítio certo. Vi a Fernanda sorrindo e, por vezes, chorando. Vi uns surfistas deitando o seu lixo para o chão. Vi umas tempestades maravilhosas na praia. Vi karaoke duas vezes por semana. Vi ruas pequenas que nunca esquecerei. Lembro-me do vento, o vento e o vento.
Vi e comi alguns polvos incríveis. Vi a cadela Estrela sentada e a olhar a lua como um lobo. Não vi mau vinho em Portugal. Não vi os pescadores a limpar o parque de estacionamento. Não vi violência.
Vi todos os dias mais que 20 pessoas a comer na mesma mesa. Vi pescadores a dar-nos peixe fresco. Vi o melhor sistema de drenagem de água. Vi um projecto verdadeiro com pessoas verdadeiras e amor verdadeiro.
Vi, e nunca me esquecerei.
Samuel Boche, 38 anos, construtor e por vezes fotógrafo de rua. Comecei o projecto Casa do Vapor em Abril de 2013. Desde então tenho vindo a Portugal sempre que possa. Mais que um projecto, a Casa do Vapor era para mim uma maneira de viver: vivendo na minha carrinha no parque da praia comecei a conhecer os moradores e, claro, as crianças da Cova. Então decidimos criar e construir um half-pipe para andar de skate. Arquitectura, auto-construção como estilo de vida: como partilhar e reactivar espaços públicos passando o tempo todos juntos numa simples cozinha de madeira? The public spaces are ours, so please, let us play together!!!
Tivemos o prazer de confeccionar na Cozinha do Vapor um jantar saudável, surpreendendo os participantes com uma Bolonhesa de Soja e um Bolo de Agrião coberto de Chocolate para sobremesa, o que para muitos foi uma novidade e uma agradável surpresa, tornando-se um Sucesso! …
Vimos as estrelas e constelações com o Clube de Ciências. Vimos uma peça de teatro realizada por um conjunto de meninos e meninas que passam férias na Cova do Vapor, entre eles os nossos filhos Martim e o Rodrigo… Ouvimos as belas histórias e contos infantis … Tocámos o belo “xilofone” feito de cabaças e garrafas…
Não assistimos à projecção das fotos antigas que nos fariam recuar no tempo e relembrar o que de bom passámos nesta aldeia piscatória.
Família Patrício Brandão e Mizé. Passamos os verões na Cova do Vapor, na nossa casa n.º 97, com vista para o mar, deslocada para o local onde ainda hoje se encontra através de juntas de bois, de forma a fugir ao avanço do mar. Esta barraca de madeira, está na nossa família desde 1963 e para ela vim eu, Miguel, com oito dias de idade, em 1973.
Eu provei uma sopa de sardinhas mas não a comi… Feita por uns franceses que não faziam ideia que tipo de peixe estavam a usar. Mas no final, por acaso até ficou um bom sabor. Eu ouvi boas conversas sobre o projeto. Eu não ouvi os contadores de histórias que vieram no último fim de semana.
Eu vi diferentes grupos de pessoas da Cova que nunca se juntam no mesmo sítio, a partilharem o espaço da Casa.
Eu senti uma grande energia. As pessoas abriram os seus corações e os moradores saíam mais à rua. Nunca senti más vibrações.
Alexandre, 26 anos, moro na Cova do Vapor em casa de amigos. Quando fiquei a saber do projeto, a cozinha já estava construída. Foi a única parte que não ajudei a construir.
Eu vi pessoas de raças muito diferentes.
Eu ouvi imensas línguas diferentes.
Eu provei doces de várias culturas.
Eu comi crepes de chocolate :)
Eu senti alegria.
Eu toquei na madeira.
Eu não cheirei a pizza.
Eu não senti tristeza.
Eu não vi a casa a ser desmontada.
Há 14 anos que sou moradora da Cova do Vapor, eu sou a Bianca, e tudo começou no dia 13 de Dezembro de 1999, quando de madrugada nasci na rampa da Baía dentro da ambulância.
Conceito e edição de texto: Diana Pereira; conceito e arranjo fotográfico: Samuel Boche; colaboração: Cécile, Mathilde, Gabriel, Julien, Patrícia, Suzanne, Nuno, família Patrício Brandão e Mizé, Alexandre, Bianca.
Diana Pereira e Samuel Boche (org.), Viver na Cova do Vapor. Em Paraquedas 2 (2014). Disponível em: www.revista-paraquedas.net/a-arte-de-viver/viver-na-cova-de-vapor/ (acesso em 05/26/2017).